18/03/2008

Obsessão

*resgatei esse texto do meu antigo blog - peço desculpas pela "reciclagem", mas eu realmente gosto muito desse texto - e escrevi há tanto tempo que acho que ninguém vai ter lido, anyway.*

Como a todos, o mórbido a fascinava. Olhar um acidente à procura de corpos, assistir aos programas policiais sorvendo os mínimos detalhes. Tirava daquilo um prazer que não compreendia. Sem no entanto deixar de lado sua própria consciência, a sussurrar constantemente em seus ouvidos ensangüentados o quanto aquilo era errado.

Mesmo assim ansiava pelo odor de carne pútrida e pelo sabor adocicado de sangue. Pela visão de ossos rasgando a carne ao exporem-se, pelo som de músculo rasgando ante o trator potente de qualquer desventura. Seria louca? Não era. Os sonhos mórbidos há muito permeiam a humanidade. Consolava-se com tal explanação e a voz de sua consciência calava. Pelo menos até a próxima visão nefasta.

Aos 18 anos adentrara a faculdade de medicina com o mesmo fascínio acompanhando-a como por toda a sua vida desde que conseguia lembrar-se. Agora curiosa, aprendia brincando com cadáveres amarelos e azuis os limites do corpo humano. Tinha discussões acaloradas com seus colegas sobre assuntos tão ou mais macabros do que aqueles que a acompanharam durante a infância, como um sonho de um filme de Tim Burton – ou melhor, um pesadelo. Assustava aos colegas tanto por seu profundo conhecimento quanto por sua tara perversa.

Até que sua curiosidade começou a levá-la a lugares onde não podia ir. Como seria o som de carne viva sendo rasgada sob um afiado bisturi? Como seria o cheiro de carne e coração ainda pulsante queimando com uma corrente elétrica? Como seria observar o sangue correr rápida e cada vez mais lentamente de artérias e veias e presenciar o exato momento em que a vida cessa? Como seria, como seria o grito de um homem ao ter a pele arrancada? “NÃO!”, gritou, e afastou seus pensamentos. Sentia um compreensível medo de si mesma. Como a todos, o mórbido a fascinava - porém em um nível terrivelmente fora do ordinário.

Seus dias e noites permeados pela interminável luta entre sufocante consciência e sinistro desejo, enquanto conhecia cada vez melhor a medicina e por conseguinte seu objeto máximo de desejo. Um equilíbrio extremamente frágil, testado e incitado a cada aula, livro e laboratório, até o limite da sanidade – e então sufocado. Por mais imprevisível que fosse seu controle em situações normais, certa vez caminhava pela faculdade tarde da noite – exausta porém acesa pela curiosidade que sempre a fazia companhia – quando foi atacada. Era um trecho escuro e pouco movimentado, e uma bela moça distraída era uma presa fácil. E algumas de suas curiosidades foram, ali mesmo, sanadas. Quase não reagiu, mesmerizada que estava ao observar e estudar seu próprio corpo ser dilacerado.

Socos.

Cortes.

Arranhões.

Sangue aglomerando-se em hematomas.

Olhava como distante daquilo tudo, mesmo quando o inevitável aconteceu, a calça rasgada atirada ao lado e o sexo involuntário. E então a emoção do momento a atingiu de uma só vez, como se um trem a atropelasse. Da onde tirou forças nunca soube, mas atirou longe seus agressores. Um permaneceu deitado, inconsciente, e o outro foi rechaçado. Ao que ficou, um destino pior o aguardava: em um momento abduzida de si, sua mente em um lugar onde a voz da consciência não mais a encontrava. Estava só. Isenta de restrições morais. Alforriada de seu próprio controle.

Livre.

Calmamente, pegou o estojo de metal que continha seu material de estudo, seu futuro material profissional. Abriu-o delicada, escolheu, separou cada item que desejava há tanto explorar. Viu seu atacante, predador feito presa tão rapidamente, levantando-se apenas agora. Observou felina sua vítima. Andou um caminhar quase ritual: passos leves e rítmicos, uma dança fúnebre, quase balé. E com precisão médica entregou-se finalmente à sua obsessão, como uma criança. Provou a carne humana que tanto a seduzia, bebeu o sangue com que tanto sonhara. Com esse folguedo doentio, nessa folia funesta, a voz que a sufocou tanto calou-se para sempre. Era apenas o início.

Uma fera à
solta – e pior: à caça.

4 comentários:

kami! disse...

Nossa! O que dizer do seu texto??? Acho que todo mundo já se sentiu atraido pelo bizarro, pelo sinistro, mais isso já passa um pouco da normalidade, quando iniciei na minha profissão tinha muito medo que poderia ver, mais confesso que uma vez no IML senti um desejo quase que repreimido de experimentar algumas coisas das quais via,uma fome normal, depois me disseram, mais é claro que nunca disse isso a ninguêm, mais já que vc pensou nisso... Confesso que sai do estágio e fui a uma churrascaria, meu pedido...carnes bem mal passadas!
Gostei muito do que li por aqui!Da forma como vc escreve....

Bjusssssssss

OgrO disse...

O_o Kami, muito medo de você! ;)

Andreia disse...

Sentindo:
....medo do ruivinho e medo dos que lêem o que o ruivinho escreve........

rancorizando disse...

medo.