16/08/2008

Mais ou menos dia (2/2)

O despertador àquela altura já tocava há quarenta minutos. Cansado de ficar deitado, resolveu acabar com a agonia e levantar-se. Para certificar-se de que não era apenas outro pesadelo, beliscou-se. Mordeu-se. Arrancou um pelo do nariz. E após uma seqüência de despertações finalmente convenceu-se de que, graças às lágrimas causadas pela depilação nasal, estava indubitavelmente acordado.

Já tivera certeza anteriormente e enganara-se, mas dessa vez sentiu fundo em sua mente que era real. Prosseguiu com sua rotina de pesadelo: lavar o rosto, fazer a barba, escovar os dentes. Vestir-se. Cheirar o couro de seu sapato e preparar-se para, finalmente, sair pela porta. Pegar o elevador até o térreo, oito andares de movimento para baixo, como sua própria vida. E agora nem sabia mais o que era real e o que era imaginação.

O que era pesadelo e o que era sua miserável vida.

Riu sem expressão do drama que fazia. Levantou-se para abrir a porta, pensando que deveria ser real, uma vez que não voltara para sua cômoda posição na cama. E então lhe ocorreu: o que seria na verdade o "real"? Sofrera menos em pesadelo. Sentiu-se menos pior? Não, o sentimento de rebaixamento, de supressão e opressão, era real. E ao mesmo tempo não era. Abandonou esses pensamentos: não era filósofo, tinha apenas que ir trabalhar para que pudesse pagar mais um aluguel atrasado e prolongar sua estada no decadente prédio, com seus decadentes vizinhos, antes de ser finalmente enxotado às ásperas e cinzentas ruas. E nada mais era certo.

Checou o calendário. Quarta-feira. - "Mas o real de fato existe?" - QUARTA-FEIRA? Significava que ele não havia saído da cama desde a quinta anterior! Não era possível. Era? - "Mas como definir essa realidade?" - Resolveu checar por mensagens em sua secretária eletrônica. Ela nunca continha mensagens, ninguém ligava para ele, tanto que ele já havia perdido o hábito de checar. A luz piscava. - "Cada um define a sua realidade." - CLARO! Como não tinha pensado naquilo antes?! Tocou sua mensagem. A fita rangeu incomodada pelo distúrbio tão raro e pontual. - "Então... qual é a MINHA realidade?" - A mensagem não era de todo clara, pois a fita já estava muito velha. Seu contexto, no entanto, estava mais do que claro: havia perdido seu emprego. Só então notou que tinha atravessado seu apartamento e observava agora a cidade e suas pessoas lá embaixo, levando suas pequenas vidas.

Ou não seriam pequenas? Ora, afastou o pensamento, seriam do tamanho de cada um, pois já havia estabelecido que cada um faz sua realidade. - "Minha realidade é... um pêlo arrancado do nariz? É a isso que se resume? Não consigo mesmo saber se estou acordado sem essa artimanha?" - O vento gelado da manhã esfriou seu rosto. Era engraçado como não tinha reparado que sua janela havia ficado aberta! Ou ele a abrira agora sem perceber? Não importava. - "Se escolho minha realidade, não aceito que seja resumida a isso." - Sem emprego, não havia nada que diferenciasse sua vida acordado de seus pesadelos dormindo. Nada. Quão vazia pode se tornar a vida de um homem? Pois assim era a sua vida.

"Não, não será assim. Eu mereço mais. Mereço alguma coisa. Não mereço esse nada, esse descaso, essa vida invisível. Mereço as imensidões do universo. A realidade é minha." O vento batia muito forte em seu rosto, e a sensação em sua barriga era prova de que voava. Havia deixado para trás seu apartamento sujo, sua vida decadente, seus aluguéis, suas dívidas, seus pesadelos. Sua não-vida! Mas essa percepção não o abateu: sentia-se livre, pela primeira vez em muito, muito tempo. Graças à ele próprio, à sua decisão de pular a janela, sua realidade não mais se resumia ao dolorido pêlo.

Voava.

Aproveitou essa sensação, e teve certeza de que era esta a sensação que sentiam os deuses: o poder de decidir, de dar e tirar a vida. De transformar uma realidade insossa em uma vida fantástica - ainda que soubesse ser brevíssima, pois o solo se aproximava rápido. Uma vida que ninguém, além dele, experimentara. Com o mesmo prazer que sentia o cheiro do couro de seus sapatos, saboreou seu vôo, sua nova vida. Sua vida que era importante, que afetaria o cosmo. Saboreou o vôo, fechando os olhos para aproveitar mais seus outros sentidos. Foi uma eternidade, seu vôo. Por isso, pensou, deuses são imortais. Fechou os olhos, mas não os abriu de novo. Nunca mais. Acabaram-se os pesadelos, as rachaduras, o despertador. Ainda conseguiu pensar, antes da colisão, que havia sido a melhor decisão de sua antiga vida, e lamentou não tê-la tomado antes. Mas não importava: havia tomado. Tomá-la antes realmente não importava naquele momento.

E nada mais importou, nunca mais: foi, finalmente, feliz.

6 comentários:

Nina disse...

=´) que lindo!

kami disse...

Adorei o texto, mais a ideia do suicidio me assusta... li uma vez que o suicidio agride por que nos diz o tempo todo sobre nossa possibilidade de escolha, por que se outro faz isso eu tb posso ter essa escolha...
A possibilidade de morte me assusta, liberdade demais me assusta... me dá uma sensação de morte. E sobre morte eu posso dizer que não é legal! E não é cliche pra tentar ser engraçada,não!
Mais o texto tá mais profundo que o habitual, o que é a minha realidade? Essa doeu um pouquinho pra engolir...responder então nem se fala!

Parabéns.... mais espero que este texto que não seja refelxo de nada na sua vida!

Bjussss

kami disse...

Através do espelho.: Noite...

Lilhá disse...

gentes, que se passa por aqui? Júlio, é vc?

rancorizando disse...

Cadê as ogrices?

Tayza Carvalhaes disse...

É aquilo que eu já tinha dito: profundo e triste bagarai. E me assusta (vc sabe o motivo). Mas o texto é fantástico. :)