14/04/2011

Carta de Aniversário

Oi, filhotinha! Você ainda é pequenina demais para ler essas linhas mal escritas, mas acho que vai ser um registro interessante para quando puder ler. E esse assunto sempre me emociona, porque afinal você é a coisa mais importante que já aconteceu na minha vida, juntinho com a sua mãe. Homenagens aqui são pouco, mas qualquer coisa que eu fizer para vocês vai ser pouco perto do quanto vocês fizeram e fazem por mim, só de existirem. Só sendo fofas. [/piadainterna] Você não sabe, mas há exatamente um ano nessa mesma hora, nesse mesmo minuto, nesse mesmo SEGUNDO (ok, vai, estou aproximando - não lembro o segundo), eu estava no trabalho terminando uma reunião quando meu celular tocou com a notícia mais felomenástica do mundo. Sabendo que você estava para chegar, pedi desculpas e atendi:

"Oi, Mô, estou terminando uma entrevista, posso ligar em 15 minutinhos?", disse eu sem perceber a aflição na voz dela. Tolinho. *

Não pode não, sua filha quer nascer." (detalhe que nessas horas, bebê, você é só minha filha viu?)

"..." emudeci por uns 3 ou 4 segundos que pareceram uma eternidade. O tempo parou. Meu coração fazia eco, latejando no peito. "Estou indo para casa," consegui dizer.

Pedi licença e encerrei a reunião, saindo quase correndo para o estacionamento. E quando dirigi para casa, o mundo parecia mover em câmera lenta. Eu só conseguia pensar em chegar em casa e ajudar sua mãe no que ela precisasse. Por sorte/destino/planejamento seus avós cariocas estavam por aqui também e já davam uma força. E como você sabe muito bem, nada como a mãe nessas horas, né? Mas gosto de achar que a minha presença era importante para sua mãe também. Enfim, cheguei em casa em míseros 18 minutos e aguardei na garagem sua mãe vencer a mais recente contração e recuperar a capacidade de andar. Pois é, meu amor, a coisa é dolorida assim mesmo. E você valeu cada contração da sua mãe, cada momento de tensão e pânico puro meu.

Nesse dia seu pai descobriu algo importante sobre ele próprio: sob pressão, ele é do tipo que age, não do tipo que trava (lembre-se disso quando chegar tarde da balada pela 1a vez, viu?). Sua mãe entrou no carro, seus avós também e partimos para o hospital mais próximo, aquele que é seu xará. Apesar do que sua avó provavelmente vai contar a vida inteira (oi, Rachel, tudo bem? :)), eu não quase atropelei ciclista nenhum. Apenas incentivei o rapaz a sair da frente mais rápido com uma pequena buzinada, mas para quem não estava dirigindo com certeza pareceu que seu papai estava doidão, dirigindo como um maníaco. Não é verdade. PARECIA isso, tenho certeza, mas eu estava pensando e agindo com maior clareza do que jamais tive. Sério. Pode acreditar no seu pai ou ir para o quarto de castigo. heheh

Chegamos ao hospital e aí tive meu primeiro lapso: o insano (por sua culpa, hein!) do seu pai abandonou o carro na recepção. Simplesmente saiu berrando "Parto! Parto!" até trazerem uma cadeira de rodas para pegar você e sua mãe e saiu seguindo o enfermeiro pelos corredores, deixando para trás carro (com a chave na ignição), vovô e vovó. Viu como você e a mamãe são importantes?

Passamos pelo que devem ter sido TODOS os corredores do hospital, quase os 42 km de uma maratona, e finalmente chegamos à área de parto. Onde a mulher disse para a gente "Calma" e onde era mais importante a carteirinha do plano médico (que, por óbvio, ficou com sua vó 37,5 km atrás de nós ainda) do que chamar alguém para atender sua mãe. Mas lidei com tudo isso também com graça e classe dignas da nobreza espanhola (alguém aí falou "inquisição"?) até que sua mãe fosse, finalmente, atendida. E aí viram que a coisa era para valer e chamaram os médicos. Eu não tinha dúvida, mas parece que muitas mulheres sentem contrações na etapa final da gravidez que não são as "de verdade" (doem de verdade, dizem), então o pessoal de hospital assume que qualquer uma que aparece na verdade se enquadra nessa categoria até prova em contrário. Deve ser melhor assim, mas para pais de primeira viagem é meio assustador.

Foram algumas horas de espera até finalmente o parto em si começar. Mas depois de começar... como foi rápido! (sua mãe certamente discordará dessa afirmação) Em 30, 40 minutinhos você saiu berrando da sua mãe, toda suja, escandalosa, inchada e LINDA. A coisa mais maravilhosa que eu já vi. Eu já te amava, mas ali me apaixonei de vez, perdidamente. A enfermeira levou você para a sua mãe só para uma foto rapidinha, que ela precisava descansar e você precisava ser limpa, medida e pesada. Eu sou muito sortudo e não precisei deixar o seu lado por um minuto - quer dizer, pelo menos até levarem você para o berçário. Acompanhei enquanto a enfermeira levou você para a sala ao lado, cortar direitinho e limpar o cordão umbilical, limpar você um pouquinho e te pesar. E você aos berros, chorando loucamente, sem entender nada do que estava acontecendo que você não estava mais no lugar quentinho e fechado onde passou os 9 meses anteriores.

Aí eu cheguei mais pertinho do seu ouvido, abaixei, e comecei a falar com você. Disse “Oi, filhinha! Eu sou o seu papai. Bem vinda ao mundo. A gente vai cuidar muito bem de você, te amar demais...” e fui falando tudo que as lágrimas permitiam, contando um monte de coisa que a gente ia fazer (algumas até já fez), quem a gente é, e sei lá, um monte de outras coisas que não lembro porque nessas horas a gente pensa com o peito e não com o cérebro. E aí aconteceu outra coisa mágica, que eu nunca vou esquecer (e estou chorando tudo de novo, emocionado tudo de novo, enquanto escrevo): logo que comecei a falar, você – que nem tinha aberto os olhos ainda – virou o rostinho para mim e começou a parar de chorar. Estava reconhecendo minha voz, será? E foi parando, parando, forçando os olhos, parando de chorar e, assim que parou completamente, abriu os olhos curiosos e viu seu papai pela primeira vez. Filha, é seu aniversário mas o maior presente do mundo foi esse seu para o seu velho. Nunca vou conseguir agradecer o suficiente por ele.

Eu te amo.

Papai


*editado porque já fui devidamente lembrado pela amável Cake que o diálogo ocorreu de maneira diferente da que escrevi. Nada como um cérebro de mulher nessas horas: ela estava PARINDO e lembra melhor que eu da conversa, powtaqueospa. O.o

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11 comentários:

Lilian Pimentel disse...

que coisa linda ;~~
parabpnes pra Cata e pra vcs ;)

ps: tbm nasci no Santa Catarina haha

B. disse...

Lindo, lindo. lindo! Vocês três merecem toda a felicidade do mundo <3

RodOgrO disse...

Obrigado, queridas!!! Beijos (e sdds de vcs, hein!)!

Lívia disse...

Me debulhei aqui...parabéns, parabéns pros três!!! :-D

Suellen disse...

alguém tem um lencinho???
lindooo!

Pedrovisky disse...

Lendo posts como esse, tenho cada vez mais vontade de ser pai! Mas tudo a sua hora, claro. Ainda tenho muita vida a dois pra curtir com a Sara.

Parabéns, meu amigo!

Carla disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carla disse...

Poxa, impossível uma grávida, mais futura mamãe, ler isso e não chorar. Não tive como não acompanhar cada linha imaginando como vai ser quando meu filhote nascer se agora, ainda no 4 mês, só penso em um aparelho de ultra pra poder vê-lo (a) e falar sempre que puder, acompanhando o desenvolvimento.
Lindo de se ler, Rodrigo.

Beijos em vocês três. o seu carinho e amor de pai é contagiantemente inexplicável!

disse...

Me emocionei!!
Parabéns!!

Matheus Tomaso disse...

Eeeeee paizão! rs

Daniela vitrolinha disse...

foi o relado mais emocionante de um pai, que eu já vi... mais tarde vou chamar meu marido pra ler... Lindo isso...
Passou um filme na minha cabeça, de quando meus gêmeos nasceram, e agora q já estão com 10 anos me dando ordens, eu tenho vontade de engolir os dois e não lançar pro mundo nunca mais rs rs rs

To de blog novo, migo... já vou linkar vc e a minicake a propósito adorei o blog dela tb

beijoooos