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07/01/2016

O três dele

E aqui fomos nós de novo. Depois da aventura que foi seu nascimento, você também não tem deixado nem um pouquinho mais fácil te criar. Voluntarioso, teimoso, cheio de manias e briga - e como briga! - pelo que quer com unhas e dentes (ou melhor dizendo, com pulmão e lágrimas).

Mas você está crescendo e amadurecendo visivelmente, o tempo todo. Apesar de ainda ter o pavio curto (sem trocadilhos,seus mente suja), você já entende que quanto mais rápido acalmar, respirar fundo e negociar, mais fácil são as coisas. Sou obrigado a confessar que isso é um alívio para o seu pai, já não quero vender você para o circo com tanta frequência (mentira, nunca quis e afinal quem iria comprar). E como você está carinhoso! A cada "colo, papai", a cada abraço, a cada "eu te amo", a cada preocupação com sua irmã, sua mamãe e comigo eu me encho de orgulho de saber que estamos criando uma pessoinha do bem, alegre e que se preocupa com os outros ("Papai, você tá feliz?" sempre que apronta alguma desmonta qualquer bronca).

Você está tão ligeiro quanto a Cat era na sua idade (a história da galocha - e tantas outras - é impagável: "Rafa, que linda sua galocha! É pra chuva?" "Não, é pra mim!"), tenho a terrivelmente deliciosa certeza de que, juntos, vocês darão muito trabalho para a gente. E estou ansioso por todos esses desafios que ainda virão, e ao mesmo tempo curtindo tanto essa fase atual, que dura tão pouco tempo.

E você também está cada vez mais criativo, inventando (e contando) histórias  incríveis, sem pé nem cabeça, e cada vez mais longas e ricas e cheias de personagens inventados nesse cérebro maravilhoso.

Feliz aniversário, meu filhote. Eu SEMPRE estarei feliz enquanto estiver ao seu lado. Te amo!

Papai

07/01/2015

5:15 - parte 2

Outro 7 de Janeiro, um dia de festa muito especial! Nosso moleque, o terremoto, o ruivinho que vai de fofo a peste em 4.7 segundos e que quando liga o turbo vai à manha-supersônica ainda mais rápido, faz dois anos! E o maior susto que já tomei na minha vida também, e como comentei aqui, vou contar a parte final (a meta de 2 posts por ano por aqui continua firme e forte heheh).

Parei na parte em que você havia acabado de nascer, vivinho da silva, chorando forte (no que você é bom até hoje, tendo até se aprimorado bastante), a maior alegria que poderíamos ter. Eu tinha voltado do interfone na esperança de achar o vizinho médico. E o que fazer agora que você estava ali, nascido?

"Liga para o meu médico."

Fui correndo pegar o telefone, sendo imediatamente chamado de volta pela sua mãe já que eu, err, esqueci você chorando no chão ao invés de entregá-lo a ela. Ops! Momento “menas pai” da manhã. Erro corrigido, cobri você com uma fralda de pano e fui ligar para o médico. Foi aí que a mamãe teve a genial idéia de perguntar que horas eram: 5:15am (e era exatamente isso, nem arredondei nem nada). Que presença de espírito diante da situação, caraca - eu estava pensando em milhões de coisas, mas essa não era uma delas. A conversa com o médico seguiu-se mais ou menos assim:

"Bom dia, Dr., é o Rodrigo, marido da Mônica. O Rafael nasceu!"
"Ok, a mala já está pronta? Nos encontramos no Hospital, estou a caminho."
"Não, Dr, o sr não entendeu... ele já nasceu, está aqui no colo dela! O que eu faço?"
"Ah, ele já nasceu? Olha, então o principal agora é cortar o cordão umbilical, é muito importante."
"Ahan, ok, dr, mas COMO eu faço isso? Esterilizo uma faca, uma tesoura? Pro sr isso é simples, Dr, mas eu sou novo nisso!", eu disse, tentando ser simpático por trás do pânico.
"Isso, isso, esteriliza uma tesoura, dá um nó de cada lado do cordão umbilical e depois corta no meio. Como já nasceu eu encontro vocês no hospital só mais tarde."
"Ok, certo!"

Enquanto isso, perguntei a sua mãe para quem mais ligar e ela sugeriu meus pais e minha irmã primeiro (alguém teria que vir ajudar a gente, afinal!) e depois os pais dela. Acho que a conversa com sua vovó Rachel foi a mais engraçada:

"Rachel, é o Rodrigo. Nasceu o Rafael!"
"Que bom! Vocês estão no hospital?"
"Não"
"Como assim não?"
"Não deu tempo. Ele nasceu em casa!"
* 25 minutos de silêncio *
"Como assim?"
"É, não deu tempo de chegar no hospital e ele nasceu aqui em casa. Mas não se preocupa, ele está muito bem e Mônica também."
"...
...
...
...Como assim?"

Desligamos e fui correndo à cozinha colocar uma tesoura no fogo, tudo parecendo tão simples e direto até ali. Mas voltei até vocês e então me deparei com um pequeno detalhe: o cordão é uma linha contínua entre vocês, mais grosso que meu dedão, e principalmente sem pontas em que eu pudesse dar nó.

Oh-oh.

Fiquei observando aquela cena pelo que pareceu uma eternidade, pensando em como caráleos alados eu poderia dar nó naquilo, uma vez que não sou nem marinheiro, nem escoteiro.


E não tinha um desses à mão para referência rápida.
Amadorismo, CLARO.

Fiquei ali amaldiçoando o médico mentalmente por segundos que pareceram minutos (ou minutos que pareceram horas, não sei) - FDP deve ter aprendido isso no primeiro dia de aula ("Bem vindos à faculdade de medicina! Tudo começa com um parto, e é assim."), mas eu sou formado em propaganda e marketing, ou seja, naquele momento eu era mais qualificado para a campanha de lançamento do bebê no mercado do que pra cortar o cordão umbilical.

Aí tive uma idéia "brilhante": cortaria o cordão ao meio e rapidamente, agora que teria duas benditas pontas nas mãos, daria um nó em cada lado como orientado. Não parecia ser exatamente o jeito certo mas diante das circunstâncias... (e não me ocorreu, com tanta adrenalina e nervosismo, tentar lembrar do nascimento da sua irmã) A indecisão demorou mais alguns momentos, e então resolvi: tinha que ser feito. Preparei a tesoura e... a campainha tocou. O vizinho médico! Corri (de novo. Perdi uns 5 kgs essa noite e o Nike Run contou 65km) para abrir a porta. O médico estava pálido com uma MALA de remédios.

"O que houve???", perguntou, alarmado.
"Minha mulher está ali no quarto, o bebê nasceu!"
"Ah, é nascimento, não morte?", perguntou ele, que descobri ali ser cardiologista e que achou que alguém estava morrendo, "Então é tranquilo", completou. Eu não estava achando até aquele momento, né, mas o especialista ali era ele.

Levei-o até o quarto, expliquei em que etapa do processo, descobri que o nome dele é Augusto (Dr. Augusto, claro) estávamos e ele deu a genial solução: um barbante para amarrar o cordão, fazendo um torniquete em cada lado. Ahhhhhhhhhhhhhhhhhh táaaaaa... porra, por que raios o médico dela não disse isso pra começar? Achei um par de cadarços novos que estavam guardados (confesso que por um momento a tentação de sacrificar um velho passou pela minha cabeça, mas aí lembrei da questão de higiene) e pronto: cordão cortado. E nisso toca a campainha, mas eu não tinha convidado mais ninguém para a festa. wtf?

"Deve ser minha mulher, Rosane, eu pedi a ela para subir também", explicou o médico, "E ela vai poder ajudar, ela é enfermeira obstétrica." Concordei que ajudaria um pouco, né, e agradeci nosso anjo da guarda mentalmente. Ela logo nos ajudou a embrulhar melhor o bebê ("Bebês perdem muito calor logo que nascem, precisa embrulhar mais - vocês têm um cobertor?") e a começar a nos arrumar para sairmos.

Durante toda essa correria, bagunça, gritaria, sua irmã dormindo. :)

Finalmente fomos para o hospital, com mais alguma ajuda: a Rosane se ofereceu para ir junto e levar você no colo até lá. Dr. Augusto pegou a sua irmã já que eu havia descido para manobrar o carro, e ela "acordou" no colo dele:

"Mamãe, o que tá acontecendo?", ela disse, morrendo de soninho.
"Filha, o irmão nasceu! A gente está indo para o hospital."
Sem nem reparar que tinha dois estranhos ali (já que tínhamos mudado não fazia muito tempo e ainda não conhecíamos os vizinhos direito), o único comentário dela foi:
"Oi, neném." e encostou a cabeça de novo no Dr. Augusto quietinha. Até hoje ela conta a história como sendo o vovô Sérgio que a pegou - e a confusãozinha sonada dela até faz sentido, porque ambos são altos, magros e grisalhos (mesmo o Dr. Augusto sendo bem mais novo que o vovô).

Chegamos ao hospital sem problemas e logo atenderam a mamãe e você, pesaram, mediram e confirmaram que você era super saudável e forte. E ficou famoso no hospital! Vieram enfermeiras de outras sessões e perguntavam: "Foi esse aí que nasceu em casa?"

Logo a tia Dri chegou, foi a primeira, e ficou com o papai e sua irmã aguardando e ajudando. Você já era cabeludo e logo deu para notar que era ruivo que nem o papai. Foi engraçado que, como você nasceu em um "ambiente externo contaminado", você não podia ir para o berçário com as outras crianças e ficou o tempo todo com a gente (que era o que a gente queria mesmo). E, óbvio, a família inteira ficou fascinada com o jeito espetacular que você veio ao mundo - mesmo que tenha certamente me custado alguns anos de vida e vários cabelos brancos...
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07/01/2014

5:15

Há um ano e três semanas, no início de Dezembro de 2012, eu e sua mãe estávamos conversando sobre sua chegada. A ansiedade, a antecipação... você, assim como sua irmã, foi muito aguardado. Mas eu tinha uma preocupação, e comentei com a mamãe:

“Putz, sabe o que eu estava pensando? A Cat foi tanta emoção, foi algo tão especial... seria injusto com o Rafa que não fosse igual, e eu tenho um pouco de medo... como a gente já passou por isso, será que vai ser tão emocionante? Você pensa nisso também?”

E sua mãe, com aquele jeitinho dela, respondeu que já tinha pensado nisso também, mas “Ah, tenho certeza que vai ser sim, é sempre diferente... agora é um menino, já é diferente.”

Isso me deixou um pouco mais tranquilo, mas confesso que a pulguinha permaneceu atrás da minha orelha. Só que eu tenho certeza que, lá dentro da barriga da sua mãe, você me ouviu e pensou: “Ah, é, papai? Você vai ver só!” Porque sua chegada foi tão inesquecível quanto a da sua irmã, assustadoramente inesquecível.

No dia 06 de Janeiro de 2013 fomos dormir, mas eu estava completamente insone. Fiquei fritando na cama até 3:30 da manhã, última vez que olhei no relógio. Já era dia 07, uma segunda-feira, e você estava previsto para chegar por volta do dia 14. Sabíamos que era a qualquer momento, e às 4:30 da manhã sua mãe me acordou dizendo que “era hora”. Eu havia acabado de pegar no sono, e ainda perguntei para sua mãe se ela tinha certeza. Ela disse que sim: pulei da cama e perguntei aonde estava a malinha que tínhamos que levar para o hospital. Enquanto fui pegar a mala, ela foi pegar alguma coisa que tinha deixado na secadora (aiai). Estávamos prontos! Mas era preciso um xixi antes e...

“Não vai dar tempo de chegar no hospital!”
“Calma, claro que dá, é a menos de 5 minutos daqui! Vamos para o carro, eu te ajudo a andar!”
“Não, você não tá entendendo! Não vai dar tempo! Corre aqui!”

Quando cheguei e fui espiar, já dava para ver a ponta da sua cabeça e os cabelinhos!

“Ih, já tá nascendo!”, berrei. Segundo a mamãe, meus olhos pareciam de mangá nessa hora (e pela próxima hora, hora e meia, aliás. E eu acredito nela).
“O que que eu faço???”
“Deita no chão!”, eu disse, e a ajudei a deitar. Um de nós dois soltou um “E agora?” e o outro respondeu “Agora a gente vai ter que fazer nós mesmos!”, mas sinceramente não lembro quem disse o quê. A sensação de pânico, de medo de algo dar errado, era de ambos. Era nítido na troca de olhares.

~*Contração*~

Enquanto eu ajudava (pouco), apareceram sua testa e seus olhinhos fechados. Sua mãe mal respirava com o susto, e minha preocupação maior (e anestesia, meodeos? Com a Cat era tanta dor que ela não conseguia nem falar até ser anestesiada! Como ela vai fazer com tanta dor?) foi em vão, acredito que por conta da adrenalina – bendita adrenalina! – porque a Mô comentou que nem pensou na dor (apesar de ter doído bastante, mas foi suportável).

~*CONTRAÇÃO*~

Eu segurava sua cabecinha e ela saiu toda. Já via seu nariz, sua bochecha, seu queixo e até seu pescocinho. Seus olhinhos continuavam fechados. E aí mamãe lembrou:

“Rô, tem um vizinho aqui no prédio que é médico! Liga pro porteiro e pede pra chamar!” – um pequeno (grande) alívio! Grande mamãe!
“Você sabe o nome dele, qual apartamento?”
“Não. Mas o porteiro deve saber, liga lá!” Bom, dada a situação, sua mãe lembrar o que lembrou já foi muito, temos que reconhecer.


Foto: mamãe, nas horas vagas.

Corri. Nosso apartamento não é grande, mas estava tudo em câmera lenta e parecia que eu tinha corrido os 100m rasos em tempo recorde. Tenho que confessar, o caminho até o interfone foi o maior pânico que passei a noite toda (sim, depois do pânico de saber que eu, que fugi de biologia porque sempre tive nervoso com sangue e afins teria que fazer um PARTO, e o parto do MEU filho ainda por cima, era possível sentir mais pânico). Explico: seus olhinhos fechados e a cabeça penduradinha me assustaram – claro que ali não tem muito espaço para se mexer, né, mas quando a gente está (muito muito muito) assustado a gente pensa besteira. E eu comecei a pensar: “será que o Rafa está nascendo 1 semana antes porque houve algum problema?” (assim: racionalmente eu sabia que nascer 1 semana antes da data estimada não é nada demais, mas minha capacidade de ser racional já tinha ido embora na hora que sua mamãe berrou que “era hora”) “E se ele demorar para nascer e não conseguir respirar, meodeos, o que vou fazer?” Porque eu lembrava do nascimento da sua irmã, da dificuldade da sua mãe em fazer força (por causa da anestesia), da pressão da enfermeira, literal e figurativamente, pulando na barriga da sua mãe durante as contrações e dizendo para ela fazer mais força porque não podia demorar mais – se no hospital, com tanta segurança, era tão crítico, imagina em casa? E por aí vai.

Mas consegui falar com o porteiro, ele sabia quem era o médico e disse que ia chamar. No instante em que desliguei o interfone ainda morrendo de medo, você chorou o choro mais maravilhoso que já ouvi na vida, e o alívio que veio com esse choro tirou o mundo dos meus ombros, foi como um banho quente no seu velho aqui. Corri de volta para o quarto e lá estava você, sobre a toalha, aos berros. E eu só conseguia sorrir.

“Ele nasceu!”
“Inteirinho?”
“Inteirinho, Mô! E está bem!” eu não continha as lágrimas. Perdi a última contração, mas não importava. Nada no mundo importava naquele momento: você estava bem, tinha nascido inteiro. “Você conseguiu, amor!”

E, com tudo isso acontecendo, eu e sua mamãe berrando para se comunicar e eu correndo pelo apartamento, sua irmã... nem tchuns, continuou dormindo. E isso foi o melhor que poderia ter acontecido.

Isso foi há exatamente um ano, e tenho certeza de que até você chegar em uma idade que vai poder ler isso aqui, já terá ouvido essas histórias mil vezes - mas sabe como é, estou ficando velho e se eu não registrar, como vou lembrar para te envergonhar pelo resto da vida? (heheh) Feliz aniversário, filhão. Amamos você demais, mesmo com o maior susto que já tomamos na vida. Vou guardar o resto da história para seu aniversário de 2 anos, apesar que com a maneira que você já chegou chegando, tenho certeza de que assunto não vai faltar.
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