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06/05/2020

Chandler

*Flashback de 1986/87*

Meu pai jogava bola todo final de semana, religiosamente. E me levava junto, para que eu jogasse com a molecada, os outros filhos da turma da pelada ali. Depois, a sagrada "cervejinha" com os amigos, enquanto eu tomava um refri e ficava escutando o bate papo deles (o resto dos garotos ia... sei lá o que ia fazer, eu nunca fui social demais e preferia ficar ali perto, para voltar logo para casa e para ouvir o papo dos adultos). 

Sempre tinha os "coroas" (na real eram mais novos do que eu sou hoje! hahahah) que ficavam se gabando de que poderiam ter sido profissionais, com alguma desculpa sobre o que tinha feito eles irem em outra direção. E eu lembrava de ficar maravilhado, pensando "nossa, que legal, estou aqui com esses quase jogadores profissionais!" (pô, dá um desconto: eu só tinha 7, 8 anos). Mais velho, ainda ouvindo as mesmas histórias, caçoava deles mentalmente enquanto ouvia e pensava no tanto que aquilo era só papo, "como podem falar tanta merda, tanta mentira, e todo mundo ainda concordar?? Se fossem bons mesmo, tinham sido profissionais"

*Corta para ano da desgraça de 2020. Dia 06 de Maio.*

Eu queria postar uma coisa no twitter hoje, mas me deu medo. Era o poeminha que escrevi esses dias, sei lá, achei legal a melancolia dele, achei que cabia em twits, e realmente me ajudou a clarear a cabeça. Mas bateu tanta insegurança que não o fiz.

Não é que eu ache que escreva mal. Também sei que não sou um grande escritor. Mas sempre gostei tanto de escrever, que a fantasia de que eu poderia ser escritor se me dedicasse, se "tivesse tempo", é uma parte grande de mim, do que sou. É reconfortante. Me dá uma crise de ansiedade real oficial pensar no que faria se fracassasse em algo que amo tanto, que tem tanta importância para mim (ler é provavelmente o hobby que mais amo na vida, sem querer ser presunçoso de maneira alguma - não arroto que só leio coisas de "alta qualidade", nem menosprezo o que outras pessoas leem. Mas confesso que já fiz isso, quando jovem. Tem que acabar o jovem). A mesma coisa com ilustração. Eu talvez tivesse algum talento, não sei, mas a real é que eu nunca fui atrás de verdade - e, nesse caso, eu inclusive tive oportunidade, e acho que é porque eu sabia que seria devastador se não desse certo.

Lembrei de Friends.

O que Chandler sempre quis fazer na vida era algo que fosse criativo (oi), mas precisava trabalhar (oi²) e arranjou um emprego em que se deu bem, mesmo sem dar muita importância (oi³) - e justamente por isso, que fazia com que não tivesse medo de arriscar, tornou-se bom naquilo. Com o tempo desenvolveu uma boa carreira, com bom salário, e foi ficando cada vez mais e mais difícil pensar em fazer qualquer outra coisa.

Eu sempre brinquei que era o Chandler por ser um loser com as mulheres e mesmo assim acabar com uma Monica e pelo senso de humor, pelo sarcasmo. Mas pqp, quando menos esperava, tá aí mais uma coisa em que posso dizer que sou como ele - claro, sem estar em uma "feel good sitcom", não tem como largar tudo para "focar na carreira que realmente gosta" (e, sendo sincero, uma grande diferença é que eu gosto bastante do que faço, me sinto bem realizado - ainda bem!) e isso ter alguma chance de dar certo.

Mesmo assim, essa fantasia é, paradoxalmente, a coisa mais real que eu tenho e não me sinto pronto ainda para abrir mão dela. Não sei por quê é tão difícil - teoricamente, eu não tenho nada a perder. Já faço algo que curto, sendo "bem sucedido" e isso é apenas um hobby, certo?

Certo?

Então por quê? Além de tudo, a máxima de que "o medo de perder tira a vontade de ganhar" (valeu, pôfexô!) dita que se eu não publico, ninguém lê, se ninguém lê, jamais vou poder tornar esse hobby minha principal atividade. Uma equação perde-perde pra coach nenhum botar defeito. Mesmo assim essa barreira mental permanece.

Qual a conclusão?

Vish, e eu lá sei*? Vim desopilar aqui justamente porque não tenho resposta alguma - e sejamos francos: dá uma olhada em tudo que postei aqui, eu por acaso tenho cara de quem tem alguma resposta pra qualquer coisa? Mal aê.
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03/05/2020

Chuva

O poeta choveu palavras
de suas pesadas nuvens de papel.
Cada gota carregando um lamento,
um amor,
um pesar,
uma alegria,
um sonho,
desejos,
que nunca existiram
E que existiram tanto

Chovia poesia
descarregando suas dores
e molhando a todos que caminham,
desavisados,
por suas linhas.
Encharcando seus cabelos,
suas roupas,
escorrendo por seus rostos,
por seus olhos,
por seus dedos.

Clarões furiosos,
de relâmpagos em sua pena,
cortando o espaço entre os versos,
lampejando a escuridão em suas mentes.
Um sobressalto efêmero tão belo
de descarga elétrica
entre céu e terra
versos e leitor.

E após sua tempestade
clareia o céu
e o escritor caminha mais leve
sentindo o sol,
as estrelas
e o cheiro de grama molhada...

07/03/2014

A minha música

Bom, claro que ficar anos sem postar mais que duas ou três vezes no período ia ter seu preço, né? heheh

Enfim, sem comentários no post, queria compartilhar a música em que eu pensei enquanto o escrevi e nas várias vezes em que reli (sacumé: revisões):



Pois é, adorei essa música. Nada demais, né? Claro que também não é a música simples que descrevi, mas não era para ser exatamente uma homenagem ao Pharrell Williams. E a idéia surgiu de outra coisa, na verdade: enquanto fuçava o iutúbio, encontrei isso:



Pessoas de Dublin resolveram gravar sua própria versão do clipe. E ficou sensacional!! E não foram apenas eles: na seqüência vi outras versões, de Poznan (Polônia), Cali (Colômbia), Remington Park (Oklahoma, EUA), Cosenza (Itália), Zurique (Suíça), Belfast (Irlanda do Norte), Kelowna (Canadá), Porto (Portugal), Kwait, Malásia, Ilhas Maurício, e muitos, muitos outros. Pessoas comuns - jovens, idosos, crianças, coxinhas, garis, operários, construtores, motoristas, felizes, alegres, fazendo papel de bobos (na maioria) dançando a mesma música em vários lugares do mundo - uma música "pra cima", contagiante. Na hora pensei quão legal seria se a música contagiasse as pessoas de tal maneira que a alegria tomasse conta, quebrando barreiras de preconceitos, culturas, fronteiras, e todos simplesmente passassem a cantar juntos e ser alegres. Ah, e tem aqui do Brasil também, apesar de ter sido um grupo de dança, o que não é tão legal - até onde pude perceber, nas outras cidades até tem alguns dançarinos mas na maioria são pessoas normais (que muitas vezes nem sabem dançar) - se o grupo brasileiro tivesse incluído também gente "normal" teria sido mais legal.

Enfim, foi isso que gerou a idéia, e independente de gostar ou não de contos (ou desse conto, claro, heheh), recomendo ouvir a música. Daquelas que não dá para não sorrir e ficar mais feliz ao ouvir. O conto bem podia virar realidade, né?

Estou fazendo a minha parte. ;)

PS: Sim, eu assisti todos - foi quase hipnótico para mim, não conseguia parar. O do Kwait eu recomendo demais assistir, é sensacional - até pelas diferenças culturais (tem mulheres de burca dançando, homens de turbante, e jovens... iguais a jovens de qualquer lugar do mundo), mas principalmente porque O QUE É O CARA DE CAMISA LISTRADA, MEODEOS? =D

PS2: se alguém quiser fazer uma versão "amadora" aqui do Brasil, ME CHAMA! =]

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26/02/2014

A Canção

"Não sei iniciar esse relato. Queria uma primeira frase histórica, épica, definitiva, que fizesse justiça à mudança global que aconteceu, tivesse o impacto que ela teve. Mas estou sentado em frente ao computador há horas e tudo que sei é que é preciso registrar o que vivemos. Para gerações futuras saberem que nem sempre as coisas foram tão boas como estão se tornando e, tudo indica, serão daqui para a frente. Mas preciso de alguma frase, suponho.

Tudo começou com uma canção.


Acredito que essa é tão boa quanto qualquer outra, e de qualquer forma foi exatamente assim. Algo tão banal. Em uma época de grande mídia, música pop, grandiosas campanhas publicitárias e ídolos (e músicas) artificiais, foi uma única canção, de autor desconhecido, que se espalhou como fogo, como eletricidade, contagiando a todos, um por um - e às vezes multidões de uma só vez. Diferente de alguns hinos como Imagine, The Times They are a Changin, Power to the People e We Shall Overcome, não tinha tom político. Não precisava.

Era mais que uma canção. Teve mil intérpretes em todas as línguas e contagiou cidades, estados e países inteiros com velocidade impressionante. A internet ajudou, viralizando a primeira interpretação da música (onde o autor do vídeo já admitia não ser o compositor, apenas tê-la ouvido em um bar certa vez e ela não ter saído de sua cabeça desde então). E era o que bastava: cada um que a ouvia, ficava com sua melodia na cabeça de imediato e de maneira irremediável. Suas notas eram mais que notas: eram a pura expressão da alegria, da felicidade. Não havia alternativa a não ser cantar junto, dançar e sentir-se bem. Por completo. E principalmente querer dividir essa alegria com os outros. Porque a canção crescia dentro de cada um de nós até se tornar grande demais para somente um indivíduo, explodindo em canção-alegria para as próximas vítimas a serem contagiadas.


E essa sensação foi espalhando pelo mundo, pessoa a pessoa, cidade a cidade. Torcedores "rivais" abraçaram-se, compreendendo finalmente que esporte é diversão e competição não é guerra. Organizações radicais deixaram de existir, os "intocáveis" na Índia foram acolhidos em residências ricas e calorosamente abraçados, em público, por todos. Revistas anunciaram o fim do uso de Photoshop, tabloides e programas policiais passaram a mostrar apenas notícias positivas e alegres. Isso nos primeiros dois dias. Jornais notificavam o "maior fenômeno cultural da história da humanidade" e, ao tocar a música, tornavam-se eles mesmo multiplicadores. Não levou uma semana para atingir quase o mundo inteiro. Racismo, machismo, homofobia, xenofobia - e na verdade todo tipo de preconceito - deixaram instantaneamente de existir nos lugares aonde a canção chegou. Não havia mais ódio, não havia mais egoísmo.

Mas não foi tão fácil, é claro. Em algumas regiões tentaram impedir a chegada da canção. Baniram a internet, a TV e o rádio. Fecharam as fronteiras, com seus exércitos instruídos a proteger a qualquer custo a mentira de "tradição, história e cultura" de seu povo. Houve tiros, protestos, embates e mortes. Mas como parar uma canção? Como impedir as pessoas de passarem-na boca a boca, no escuro, em um porão, ao redor de uma fogueira? Ninguém encontrou a resposta, e tanto na fronteira quanto dentro dela as pessoas acabavam por ouvir a melodia, e cantaram-na a plenos pulmões. Os soldados enviados para punir os "subversivos" acabavam por ouvi-la, jogando suas armas ao chão e juntando-se a eles em coro, dança e alegria, percebendo sermos todos iguais, que deveríamos estar lado a lado, não em confronto. Assim, não sem contratempos e bem aos trancos e barrancos, mesmo nesses lugares a canção espalhou-se e contagiou a todos. E o planeta, finalmente, se tornou um, com todos trabalhando juntos em criar comunidades colaborativas e igualitárias, todos contribuindo na construção, melhoria e conservação de tudo, em harmonia. E cantando, e dançando, e vivendo. Que época de ouro.

E tudo começou com uma canção."

Nota: eu realmente acredito que temos, em cada um de nós, uma canção com o potencial de promover essa mudança, de viver e cantar em nossas almas. Precisamos aprender a ouvi-la.

Nota 2: lendo esse conto, você chegou a pensar em alguma música específica? Caso afirmativo, deixa nos comentários - eu gostaria de conhecer!
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22/10/2010

Meu poema favorito

Robert Frost era foda. Revolucionou a poesia norte-americana. Mas sério: não entendo grandes coisas de poesia. Ou de arte. Só sei o que gosto e acho interessante e o que meu célebro é limitado demais para entender (tipo a genialidade disso, que acho sim que é algo que uma criança faria). O exemplo de algo que gosto na pintura é isso. Sugiro abrir os dois e comparar, só para ver se você é tão limitado(a) quanto eu ou se é um dos gênios que entende o brilhantismo de rabiscos.

E por outro lado é importante eu mencionar que se você é do tipo que diz "Não gosto de arte/literatura", eu discordo. Você só não encontrou o QUE gosta, mas de alguma coisa você gosta. Ou você é um(a) jumento(a) que assume que absolutamente nada que vir ou ler na VIDA vai ser legal???

Mas enfim, divaguei. Eu queria falar de poesia. Não, nem é isso na verdade. Eu queria só compartilhar um poema que adoro. E se você não gostar, mal aê, você é imbecil e ignorante. HAH! Dorme com essa! E boa leitura.

The Road Not Taken

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair
And having perhaps the better claim,
Because it was gry and wanted wear;
Though as for that, the ping there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
two roads diverged in a wood, and I --
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

Gaspogrinho, o ogre Camarada, traduz (muito pouco poeticamente) para os deficientes inglesais:

A Estrada Não Trilhada

Duas estradas bifurcaram em uma mata amarelada
E lamentando não poder trilhar ambas
E ser um só viajante, fiquei longo tempo
Contemplando uma delas, Até onde conseguia
Onde ela dobrava na vegetação e sumia

Virei-me para a outra, tão bela quanto
Mas sendo talvez mais atraente
Pois a grama alta pedia para ser gasta
Apesar de nesse ponto o uso
Tê-las gasto na verdade por igual

E ambas aquela manhã jaziam igualmente
Sob folhas que passo algum tinha amassado
Ah, guardei a primeira para outro dia
Mesmo sabendo que caminhos levam a caminhos
E duvidando que voltaria

Eu contarei essa história suspirando
Em algum lugar eras e eras depois
Duas estradas bifurcaram em uma mata e eu
Eu trilhei a estrada menos trilhada
E isso fez toda a diferença.

Nada a ver, mas outro exemplo de pintura que gosto é essa. Porra, devia fazer um post sobre arte logo de uma vez... hahahah
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30/11/2009

Adaptação

Não, não estou falando daquele filme chatésimo com o Nicholas Cage. Estou falando de mudanças e revisão de alguns conceitos.

Livre


Finjo não me importar
Com as coisas ao meu redor
Faço que nada me afeta, nada me encosta
A mais pura mentira,
Clichê de alienação

A verdade é que tudo me muda tanto
Sou um caleidoscópio enlouquecido, camaleão
Sonho como criança, tenho ambições de adulto
Sou um e sou muitos:
Sou eu apaixonado, irremediavelmente
Sou eu palhaço e brincalhão
Sou eu cansado e forçando os limites
Quebrando todas as regras.
Sou eu seguindo todas as regras
Sério e compenetrado.
Sou eu materialista
E sempre espiritual.

Hoje não acordei o mesmo homem de ontem
E não sou o mesmo que serei amanhã
Não sou nem o mesmo de alguns minutos atrás
Fluo como a água, sem amarras
E assim sou livre
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16/04/2009

A Beleza

Beleza, te quero
Mas que não seja tudo...
E não aos olhos dos outros,
Mas aos meus.
Não quero uma beleza óbvia,
Mas uma que te faça única
Quero o que te faça minha
E cada vez mais linda ao meu olhar.

Beleza, te quero
Mas não se prenda ao lugar-comum
Seja beleza no inusitado, na surpresa
Beleza até no ruim.

Beleza, te quero
Explodindo em meu peito
Cantando e rodando e rodando e dançando
Fazendo-me sentir vivo
E eterno
Mesmo tão mortal...

10/02/2009

Os 7 Diamantes Negros - parte IV e final

Havia algo naquele brilho no olhar de Yvyvy, algo estranho. Até mais sombrio que o normal.

E ainda mais tétrico.

Mas a fama de tornar-se a pessoa que encontrou os Sete Diamantes Negros, a glória! Finalmente tomando uma decisão, Gargoth olhou novamente para Yvyvy e disse:

“Vai se fuder, velho decrépito. Não vou roubar pôrra nenhuma para você dominar o mundo. Já tenho mais ouro do que posso gastar na vida mesmo! F-O-D-A-SE!!!”

Yvyvy não acreditava no que ouvia! Aquela pequenina e insignificante criatura, motivada por ouro e álcool mais do que qualquer outra em Ellemmon, ousava contrariá-lo?! Porém, ante sua perplexidade – e aproveitando esse curtíssimo momento de distração para pegá-lo de surpresa – Gargoth saltou, faca em mãos, e cortou seu pescoço. Ficou parado, observando enquanto Yvyvy caía de joelhos à sua frente em vão tentando desesperadamente estancar o sangramento, que esguichava por toda a sua sala de estar. Lentamente, a vida esvaía de sua casca seca e bizarra demais para ser descrita. Gargoth deu a volta e sentou-se em sua cadeira favorita. Retirou o Bracelete de Raunos do punho inerte de Yvyvy e o jogou sobre uma pilha de adornos de ouro, platina e prata, alguns lisos e outros incrustados de pedras preciosas, que jazia empoeirada em um canto da sala. Seu tesouro, que ocupava praticamente todos os cômodos da imensa toca em que morava, era separado por classificações peculiares: adornos, armas, escudos, armaduras, anéis, moedas, pedras. Olhou novamente para o chão ensangüentado, encharcado com o sangue negro-esverdeado do cadáver. Puxou forte o catarro e cuspiu no corpo.

“Feladapooowta, ainda sujou o carpete Okiluiano que roubei quando fui contratado para assassinar o Rei de Akalione!”

E foi assim que a busca aos Sete Diamantes Negros nunca aconteceu. Ninguém ficou sabendo do ocorrido, ninguém sentiu falta do necromante (muito pelo contrário) e por todas as eras ninguém conseguiu mapear a localização do Bracelete de Raunos, e muito menos dos Sete Diamantes Negros, o épico mais sem graça da história.

The Fim (ou "O End"?)

E há rumores de que o Peter Jackson dirigirá o curta-metragem dessa história, que terá apenas 2 horas e 17 minutos. ;P
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29/01/2009

Os 7 Diamantes Negros - parte III

Enquanto Yvyvy o encarava, Gargoth pensava sobre a possível aventura e podia sentir o sabor da adrenalina, do sangue que derramaria para encontrar os Sete Diamantes Negros. Seria grandioso, histórico. Mas uma dúvida ainda o atormentava... Por que o necromante queria tanto os Diamantes? Eles continham um poder terrível, era o que diziam. Mas segundo a lenda, a única maneira de controlar o imenso poder destrutivo que os diamantes hipoteticamente teriam seria através de um item que não era nem mesmo mencionado nas rodas das tavernas, que expedição alguma nem mesmo se atrevera a buscar. E sem esse lendário – até mesmo mitológico – bracelete, os Sete Diamantes Negros eram como forças da natureza, incontroláveis – tanto quanto uma tempestade, um terremoto ou um furacão. Hesitando entre perguntar ou não, uma vez que poderia levar a outra busca ainda mais perigosa, Gargoth repentinamente se deu conta de que o necromante, se sabia a localização dos Diamantes, obviamente conhecia muito melhor do que qualquer outro em toda Ellemmon a lenda a seu respeito – e, portanto, sabia sobre o bracelete.

“Mas os Diamantes Negros seriam inúteis sem o Bracelete de Raunos para controlá-los, e ninguém jamais conseguiria encontrar...” Yvyvy bruscamente o interrompeu: “ESSE bracelete?”, disse, mostrando triunfantemente seu punho direito! “Muitos mercenários morreram em busca desse souvenir, monstro. E agora me resta apenas você para conseguir os Diamantes Negros, e você é o melhor. E a maior recompensa que você, ou qualquer outro mercenário dessa e de outras terras já viu, será sua!” Seu sorriso maligno dava-lhe uma expressão ainda mais demoníaca.

“E com isso você seria capaz de dominar toda Ellemmon...”

“Exatamente, criatura néscia!”, disse Yvyvy, com um brilho ensandecido em seus olhos.

Gargoth travava uma luta interna. O desafio era imenso, suas chances de sobrevivência mínimas. Tudo do jeito que ele mais gostava. E a recompensa em ouro que viria não era nada comparado a entrar para a HISTÓRIA como o maior mercenário de todos os tempos! A oferta era verdadeiramente tentadora, tão sedutora quanto uma fada amarela de 8 braços de Nerigaant. Gargoth olhava para o vazio, perdido em sonhos de glória e luxúria.

Continua... (de novo, pra variar, eu sei...)
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27/01/2009

Os 7 Diamantes Negros - parte II

A petulância era praticamente a única característica de Gargoth que agradava Yvyvy. Ele mataria sem pestanejar qualquer outro que se dirigisse a ele daquela forma.

“Estou em busca do Tesouro dos Tesouros, meu caro. Procuro, sem mais delongas, os Sete Diamantes Negros.” Gargoth não riu. Todos em Ellemmon já tinham ouvido falar da lenda dos Sete Diamantes Negros, e sempre que alguém partia em busca de tal tesouro, virava motivo de chacota. Não havia indícios de que realmente existiam. Dos mais experientes guerreiros a gordos burgueses em busca de um pouco de aventura: todos os que partiam em busca desse tesouro voltavam de mãos vazias, bolsos vazios e com diversas cicatrizes por todo o corpo de lembrança – isso quando voltavam. Mas Gargoth sabia que Yvyvy não era qualquer um, e que sua proposta não deveria ser vista com leviandade. Seu semblante tornou-se sério. Yvyvy saboreou o momento por longos segundos antes de continuar.

“Eles se encontram longe, monstrinho. Longe demais para um velho necromante como eu.”

“Você não está se referindo AOS Sete Diamantes Negros, está?”

Yvyvy apenas sorriu.

OS Sete Diamantes Negros? Criados pelo Lorde Raunos, e presenteados aos 7 Reis que governavam Ellemmon na Quarta Era? AQUELES Sete Diamantes Negros?” Yvyvy assentiu com a cabeça, divertindo-se muito com a situação e o choque de seu bizarro mercenário. Gargoth sentou-se - ou melhor, largou-se - em um pequeno banco, olhando fixamente para a lareira, que ardia.

Sussurrava para si mesmo, quase inaudível. “Powtaquepariw... os Sete Diamantes Negros... que possibilitaram a Raunos dominar toda Ellemmon! É realmente o Tesouro dos Tesouros...”

Yvyvy interviu: “Pois saiba que eles são guardados pelos mais temíveis monstros, e pelas mais perigosas armadilhas. Todas criadas por Masuran, o Sábio, vizir de Lorde Raunos. Aceita o desafio?”

Continua...
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23/01/2009

Os 7 Diamantes Negros - parte I

Gargoth era uma criatura estranha. Seus pés, ou melhor patas, eram como felinas: almofadadas e insensíveis a temperatura. Suas mãos tinham algo de répteis, com uma aderência que permitia tanto escaladas providenciais em uma fuga quanto surrupiar algo com um mero toque. Sua cabeça era uma mistura de humana e coruja, permitia 180° de rotação e tinha visão bilateral. Qualidades que o tornaram um ladrão de reputação em Ellemmon, a terra das mil setecentos e setenta e sete estrelas. Tão famoso que seus serviços eram requeridos por contratantes dos mais distantes confins do planeta. Gargoth não obedecia a rei algum, não se submetia a lei alguma. E por isso mesmo era contratado por diversos reis, de diferentes reinos, com as mais diferentes intenções - das mais nobres às mais vis.

Volta e meia era solicitado, inclusive, por um necromante muito poderoso chamado Yvyvy – uma criatura estranha por si só, nem macho nem fêmea e quase impossível de descrever. As mais bizarras aventuras de Gargoth tinham sido sob contrato de Yvyvy. As mais arriscadas. As mais interessantes e curiosas. As mais perigosas. As mais lucrativas.

Quando ouviu o bater na porta aquela manhã, Gargoth já sabia que era mais uma vez perturbado por aquele misterioso ser. O próprio ritmo com que batia o denunciava. Gargoth caminhou lentamente até a porta e abriu devagar. Yvyvy entrou sem cerimônia, caminhando diretamente para a lareira, buscando aquecer-se do frio do inverno. Em vão: os espessos pêlos de Gargoth o aqueciam, e a lareira estava apagada. Gargoth divertiu-se com aquilo, mas observou enquanto fechava a porta que, com um mero tremelicar dos dedos, Yvyvy pôs a lareira em chamas antes de sentar-se. Na cadeira de Gargoth! Isso o irritava profundamente – sempre que o visitava, Yvyvy tomava posse de sua cadeira favorita: aquela que os anos e anos de uso tinham dado a forma perfeita para acomodar seu peculiar traseiro. Mas Gargoth não se atreveu a expulsar seu visitante. Qualquer outro seria escorraçado na primeira ofensa, ou até morto. Mas Gargoth nutria um profundo respeito – senão medo – por Yvyvy. O mesmo era verdade do outro lado: Yvyvy sabia que Gargoth era praticamente imune a mágicas e feitiços e sabia de suas habilidades, portanto não se atrevia a traí-lo ou tentar qualquer tipo de trapaça, o que diminuía seu controle sobre ele. E isso o irritava profundamente. Por isso evitava chamá-lo, recorrendo a seus serviços apenas quando indispensáveis.

“O que quer, velho?”, grunhiu Gargoth, entre dentes cerrados. “Desembucha logo, para que eu possa voltar a dormir”. Yvyvy deu-lhe um olhar curioso, coçando o anel de esmeralda que usava na mão esquerda. “Vim lhe propor um serviço, criaturinha vil”, disse, por fim. “Um serviço deveras... desafiador. E lucrativo. Talvez o mais lucrativo de nossas vidas.” Gargoth estava sem paciência. “E qual seria, Yvyvy? O que você quer que eu roube dessa vez?”, disse esfregando os olhos com o indicador e o polegar. Sem paciência, mas visivelmente interessado. Yvyvy deu um sorriso macabro.

Continua...
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01/12/2008

Platonismos

Dos idos de 2003, 2004. Porque não estou conseguindo pensar em nada engraçadinho nos últimos tempos, e pôxa, afinal de contas não é só piada que eu consigo estragar sei fazer.

"Platonismos"

Você me pediu um poema romântico
Que não falasse de amor
Que não falasse de falta, de dor
Sem sensualidade ou paixão

Que fosse puro e simples
E trouxesse conforto, acalento
Que a envolvesse como um abraço
de irmão saudoso que retorna ao lar

Mas devo precavê-la: romantismos assim
São insípidos, tanto quanto puros
A perfeição é sem sal, querida
Os melhores beijos são roubados no escuro
E as emoções sempre vêm dos tropeços
Pois o gênio é irmão da loucura!
Antes ter confusões e medos
Do que viver sem ter vivido...
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11/11/2008

03/10/2008

Sonhos e imaginação

*suspiro* Meu lado romântico despertou. Post proibido para diabéticos, escrito para uma pessoa que foi e sempre será das mais especiais da minha vida; espero que gostem de açúcar, minha gente, que aqui não tem adoçante.

"Mundos noturnos" 

A pequena fada brinca com um mundo hipotético
Na palma das mãos
Um mundo criado
E para sempre guardado
Em seu coração
Cheio de loucuras, um mundo de sonhos
Um breve lapso do tempo, onde o tempo não passa
Que podemos visitar sempre que quisermos
No alto da noite, no pôr da lua
Por um mágico e terno momento

Mas cuidado, pequena fada
Um mero sussurro e esse mundo esvaece
Desaba, desmancha, desaparece e acaba
Até o próximo anoitecer...
Mundos de sonho são assim, frágeis
Delicados e apaixonados, como um beijo deve ser
Intensos e calorosos como o amor deve ser
E fugazes, tão fugazes
Quanto todos os melhores momentos parecem ser

Mas calma, não há motivo para apreensão
Há a cada anoitecer um novo sonho
Um novo mundo na palma das suas mãos para brincar
Com novas loucuras a explorar, novas hipóteses
Com hipotéticos beijos e abraços:
Mais magia de fada, feitiçaria
Que nos permita fugir
Dessa vida de responsabilidades e consequências
Tão típica dos mortais
E possamos curtir novos momentos juntos, novas aventuras
Em um novo e breve lapso do tempo

29/09/2008

O dom de contar histórias

-- texto publicado no falido e falecido Good/Bad Trip, mas que gosto e acho que vale a reciclagem nesse blog aqui, que é só falido.

Ela olhou para todos ao redor da mesa e sorriu. Continua o relato de sua “odisséia”: um pequeno caso do dia a dia; que sua narrativa, porém, transformava em algo interessante e mágico. Todos àquela mesa estavam, deliciosa e inconscientemente na palma da sua mão.

Algumas pessoas têm mesmo essa capacidade. Vou citar um exemplo aqui, mas praticamente todos naquela listinha de links ao lado são extremamente talentosos nisso, mas vou citar o exemplo de alguém que é assim sem nem pensar. Mas antes quero mencionar um exemplo que não vem de blogs, porque afff, vamos combinar que isso cansa, né? Ficar muito preso a esse "mundo".

Outro dia, em um happy hour com alguns colegas da empresa, pude apreciar uma dessas pessoas contando um caso absolutamente ordinário e tornando-o tão interessante quanto um livro de Dan Brown, Agatha Christie ou Michael Crichton (ok, nacionalistas de plantão, podem me xingar à vontade – mas não leio um livro bom de autor nacional desde... sei lá, Monteiro Lobato*). Nada disso: apenas contava sobre como conseguiu comprar um ingresso para um rodeio. E não, ela não ganhou o ingresso de graça nem mesmo comprou o último ingresso disponível. Ela foi ao caixa, tirou a carteira, não aceitavam seu cartão de crédito, ela caçou alguns trocados e pagou com moedinhas. Simples assim! Mas a maneira como se conta algo é tão ou mais importante que o quê se conta. Esse caso ilustra perfeitamente o ponto. Todos ao redor da mesa, incluindo eu mesmo, rimos até doer a barriga.

Outra pessoa que conheço com esse dom é uma amiga metida a francesa. Ela também conta qualquer coisa como se estivesse narrando uma história. Apesar de apelar para o lado mais dramático das coisas, também torna tudo muito mais interessante. Uma rápida ida à locadora. Uma prova. Uma monografia. Uma barata no apartamento. Meu Deus, a bendita história da barata!! Parecia falar sobre uma aventura de Indiana Jones. E a maneira como ela conta a história faz com que os interlocutores sintam seu desespero, seu medo, a correria e o “perigo”. Quando inicialmente ouvi a história a barata já era grande (grande demais, aliás). Hoje ela deve ter o tamanho de um gato. E continuará crescendo!

Isso é surpreendente quando percebe-se que alguém faz isso sem o menor esforço. É simplesmente sua maneira de ser. Há tempos que escrevo e tento ser minimamente interessante, assim como milhões de outras pessoas, enquanto algumas têm tudo em si próprias. É maravilhoso. É assustador.

E eu morro de inveja!! ;)

*brincadeira, eu gostei muito de Xangô de Baker Street, do Jô Soares. Mas não gostei de Quem Matou Getúlio Vargas?, para ser sincero.

16/08/2008

Mais ou menos dia (2/2)

O despertador àquela altura já tocava há quarenta minutos. Cansado de ficar deitado, resolveu acabar com a agonia e levantar-se. Para certificar-se de que não era apenas outro pesadelo, beliscou-se. Mordeu-se. Arrancou um pelo do nariz. E após uma seqüência de despertações finalmente convenceu-se de que, graças às lágrimas causadas pela depilação nasal, estava indubitavelmente acordado.

Já tivera certeza anteriormente e enganara-se, mas dessa vez sentiu fundo em sua mente que era real. Prosseguiu com sua rotina de pesadelo: lavar o rosto, fazer a barba, escovar os dentes. Vestir-se. Cheirar o couro de seu sapato e preparar-se para, finalmente, sair pela porta. Pegar o elevador até o térreo, oito andares de movimento para baixo, como sua própria vida. E agora nem sabia mais o que era real e o que era imaginação.

O que era pesadelo e o que era sua miserável vida.

Riu sem expressão do drama que fazia. Levantou-se para abrir a porta, pensando que deveria ser real, uma vez que não voltara para sua cômoda posição na cama. E então lhe ocorreu: o que seria na verdade o "real"? Sofrera menos em pesadelo. Sentiu-se menos pior? Não, o sentimento de rebaixamento, de supressão e opressão, era real. E ao mesmo tempo não era. Abandonou esses pensamentos: não era filósofo, tinha apenas que ir trabalhar para que pudesse pagar mais um aluguel atrasado e prolongar sua estada no decadente prédio, com seus decadentes vizinhos, antes de ser finalmente enxotado às ásperas e cinzentas ruas. E nada mais era certo.

Checou o calendário. Quarta-feira. - "Mas o real de fato existe?" - QUARTA-FEIRA? Significava que ele não havia saído da cama desde a quinta anterior! Não era possível. Era? - "Mas como definir essa realidade?" - Resolveu checar por mensagens em sua secretária eletrônica. Ela nunca continha mensagens, ninguém ligava para ele, tanto que ele já havia perdido o hábito de checar. A luz piscava. - "Cada um define a sua realidade." - CLARO! Como não tinha pensado naquilo antes?! Tocou sua mensagem. A fita rangeu incomodada pelo distúrbio tão raro e pontual. - "Então... qual é a MINHA realidade?" - A mensagem não era de todo clara, pois a fita já estava muito velha. Seu contexto, no entanto, estava mais do que claro: havia perdido seu emprego. Só então notou que tinha atravessado seu apartamento e observava agora a cidade e suas pessoas lá embaixo, levando suas pequenas vidas.

Ou não seriam pequenas? Ora, afastou o pensamento, seriam do tamanho de cada um, pois já havia estabelecido que cada um faz sua realidade. - "Minha realidade é... um pêlo arrancado do nariz? É a isso que se resume? Não consigo mesmo saber se estou acordado sem essa artimanha?" - O vento gelado da manhã esfriou seu rosto. Era engraçado como não tinha reparado que sua janela havia ficado aberta! Ou ele a abrira agora sem perceber? Não importava. - "Se escolho minha realidade, não aceito que seja resumida a isso." - Sem emprego, não havia nada que diferenciasse sua vida acordado de seus pesadelos dormindo. Nada. Quão vazia pode se tornar a vida de um homem? Pois assim era a sua vida.

"Não, não será assim. Eu mereço mais. Mereço alguma coisa. Não mereço esse nada, esse descaso, essa vida invisível. Mereço as imensidões do universo. A realidade é minha." O vento batia muito forte em seu rosto, e a sensação em sua barriga era prova de que voava. Havia deixado para trás seu apartamento sujo, sua vida decadente, seus aluguéis, suas dívidas, seus pesadelos. Sua não-vida! Mas essa percepção não o abateu: sentia-se livre, pela primeira vez em muito, muito tempo. Graças à ele próprio, à sua decisão de pular a janela, sua realidade não mais se resumia ao dolorido pêlo.

Voava.

Aproveitou essa sensação, e teve certeza de que era esta a sensação que sentiam os deuses: o poder de decidir, de dar e tirar a vida. De transformar uma realidade insossa em uma vida fantástica - ainda que soubesse ser brevíssima, pois o solo se aproximava rápido. Uma vida que ninguém, além dele, experimentara. Com o mesmo prazer que sentia o cheiro do couro de seus sapatos, saboreou seu vôo, sua nova vida. Sua vida que era importante, que afetaria o cosmo. Saboreou o vôo, fechando os olhos para aproveitar mais seus outros sentidos. Foi uma eternidade, seu vôo. Por isso, pensou, deuses são imortais. Fechou os olhos, mas não os abriu de novo. Nunca mais. Acabaram-se os pesadelos, as rachaduras, o despertador. Ainda conseguiu pensar, antes da colisão, que havia sido a melhor decisão de sua antiga vida, e lamentou não tê-la tomado antes. Mas não importava: havia tomado. Tomá-la antes realmente não importava naquele momento.

E nada mais importou, nunca mais: foi, finalmente, feliz.

13/08/2008

Mais ou menos dia

Acordou sem perceber que havia desperto. Seu olhar perdido no teto contava as rachaduras e imaginava se faltaria muito para que desabasse, simplesmente, acabando assim com a melancolia de cada manhã. Mas o teto não desabava, e o despertador esgoelava-se há vinte e cinco minutos, incansável, tentando cumprir sua tarefa diária e cada vez mais árdua de tirar seu dono da cama.

Então não teve escolha, a não ser levantar: estava, sem dúvida, acordado. Não que estar dormindo aliviasse de alguma maneira seu sofrimento. Pelo contrário. Seus pesadelos disputavam com seus dias quem seria capaz de derrubá-lo definitivamente. Ele apenas aguardava a resolução da disputa, apenas mais um espectador. Era seu único conforto pensar que a decisão não era responsabilidade sua. Não mais.

A água gelada bateu em seu rosto, e ele abriu os olhos ardidos para descobrir que sonhava. Ainda estava na cama a olhar para o teto. Contou as rachaduras. Encontrou trinta e cinco, e o despertador já tocava há vinte e nove minutos. Para que levantar? Não valia à pena! Logo descobriria-se em mais um pesadelo, deitado na mesma cama, a contar as mesmas rachaduras.

Um cheiro forte de gordura frita invadiu suas narinas, vindo da rua abaixo. A rua suja em que morava escondia muitos segredos em suas vielas, muitas pessoas boas, ouviu dizer – mas nunca as viu. Só encontrara pessoas ruins, à espera de apenas uma oportunidade para agredir umas às outras, roubarem umas às outras ou violentarem mais uma menina. Era triste, mas o cheiro gorduroso o convenceu de que estava acordado, e a náusea o convenceu a levantar. Com um esforço descomunal (ou assim pareceu-lhe, mas não mais quando já havia levantado) levantou-se e foi ao banheiro lavar-se. No espelho contou suas rugas e notou o quanto a barba por fazer lhe envelhecia a face. Era novo: vinte e nove anos. No espelho, o reflexo era de um senhor de cinqüenta. Não, sessenta.

Podia ser ele? Como havia chegado àquele estado?

Colocou de lado esses pensamentos enquanto aprontou-se para ir ao trabalho. A camisa havia guardado em sua memória o cheiro forte de bebida, do bar em que havia parado na noite anterior. Para que lavá-la? Não era necessário, ainda não estava manchada. A calça lhe pareceu apertada, e ele amaldiçoou a lavadeira que a havia encolhido – ou seria sua própria barriga que havia crescido? Não percebeu. Ou percebeu mas não quis ver. De qualquer modo, sentou-se e colocou suas meias, cada qual com seu furo mas cheirando a mofo em uníssono. Seus sapatos, no entanto, estavam impecáveis. Bem cuidados, novos, lustrados, perfeitos: ainda com cheiro de couro. Deixou que o cheiro preenchesse seus pulmões, fechou os olhos para saboreá-lo ao máximo. E quando os abriu novamente descobriu-se ainda deitado na cama, olhando para as rachaduras no teto, com o despertador tocando desesperadamente há exatamente trinta e cinco minutos. Ele riu, sem mexer o rosto. Ainda estava deitado. E lá estavam as rachaduras - contou-as vinte e duas. Não sairia da cama aquele dia. Para que?

Não valia à pena.

02/05/2008

Urbanidade

É curioso, mas de tudo que já escrevi essa poesia mega-simples é das que mais gosto. Ela é bonitinha, não sei bem explicar... E como estamos em meio de feriadão e fui assolado por uma gripe pentelhíssima, o máximo que sou capaz de escrever aqui é isso... malaê.

"Cidade"

Poetas, poetas e britadeiras
Fazem ruídos e sons
Que se misturam no ar
No mesmo céu cinza-anil
Onde voa o beija-flor, a andorinha
Voam e ninguém vê...
E nas árvores poucas, cantam poucos sabiás

Cantam e ninguém ouve...
Porque poetas, poetas e britadeiras
Fazem ruídos e sons
Que se misturam no ar...


Então, era à direita ou à esquerda na torre?

18/03/2008

Obsessão

*resgatei esse texto do meu antigo blog - peço desculpas pela "reciclagem", mas eu realmente gosto muito desse texto - e escrevi há tanto tempo que acho que ninguém vai ter lido, anyway.* 
*(edit 2020) aviso de gatilho: violência sexual, violência física*

Como a todos, o mórbido a fascinava. Olhar um acidente à procura de corpos, assistir aos programas policiais sorvendo os mínimos detalhes. Tirava daquilo um prazer que não compreendia. Sem no entanto deixar de lado sua própria consciência, a sussurrar constantemente em seus ouvidos ensangüentados o quanto aquilo era errado.

Mesmo assim, ansiava pelo odor da carne crua e pelo sabor adocicado de sangue. Pela visão de ossos rasgando a carne ao exporem-se, pelo som de músculo rasgando ante o trator potente de qualquer desventura. Seria louca? Não era. Os sonhos mórbidos há muito permeiam a humanidade. Consolava-se com tal explanação e a voz de sua consciência calava. Pelo menos até a próxima visão nefasta.

Aos 18 anos adentrara a faculdade de medicina com o mesmo fascínio acompanhando-a como por toda a sua vida desde que conseguia lembrar-se. Agora curiosa, aprendia brincando com cadáveres amarelos e azuis os limites do corpo humano. Tinha discussões acaloradas com seus colegas sobre assuntos tão ou mais macabros do que aqueles que a acompanharam durante a infância, como um sonho de um filme de Tim Burton – ou melhor, um pesadelo. Assustava aos colegas tanto por seu profundo conhecimento quanto por sua tara perversa.

Até que sua curiosidade começou a levá-la a lugares aonde não podia ir. Como seria o som de carne viva sendo rasgada sob um afiado bisturi? Como seria o cheiro de carne e coração ainda pulsante queimando com uma corrente elétrica? Como seria observar o sangue correr rápida e cada vez mais lentamente de artérias e veias e presenciar o exato momento em que a vida cessa? Como seria, como seria o grito de um homem ao ter a pele arrancada? “NÃO!”, gritou, e afastou seus pensamentos. Sentia um compreensível medo de si mesma. Como a todos, o mórbido a fascinava - porém em um nível terrivelmente fora do ordinário.

Seus dias e noites permeados pela interminável luta entre sufocante consciência e sinistro desejo, enquanto conhecia cada vez melhor a medicina e por conseguinte seu objeto máximo de desejo. Um equilíbrio extremamente frágil, testado e incitado a cada aula, livro e laboratório, até o limite da sanidade – e então sufocado, controlado no limiar.

Por mais imprevisível que fosse seu controle já em situações normais, certa vez caminhava pela faculdade tarde da noite – exausta porém acesa pela curiosidade que sempre a fazia companhia – quando foi atacada. Era um trecho escuro e pouco movimentado, e uma bela moça distraída era uma presa fácil. E algumas de suas curiosidades foram, ali mesmo, sanadas. Quase não reagiu, mesmerizada que estava ao observar e estudar seu próprio corpo ser dilacerado: socos. Cortes. Arranhões. Sangue aglomerando-se em hematomas.

Olhava como se estivesse distante daquilo tudo, mesmo quando o inevitável aconteceu; a calça rasgada atirada ao lado e o sexo involuntário na iminência de roubar-lhe de si. E então a emoção do momento a atingiu de uma só vez, como se um trem a atropelasse. De onde tirou forças nunca soube, mas atirou longe seus agressores. Um permaneceu deitado, inconsciente, e o outro foi rechaçado. Ao que ficou, um destino pior o aguardava: em um momento abduzida de si, sua mente em um lugar onde a voz da consciência não mais fazia companhia, nem mesmo a encontrava. Estava só. Isenta de restrições morais. Alforriada de seu próprio controle.

Livre.

Calmamente, pegou o estojo de metal que continha seu material de estudo, seu futuro material profissional. Abriu-o, delicada, e escolheu, separando cada item que desejava há tanto explorar. Viu seu atacante, predador feito presa tão rapidamente, levantando-se apenas agora. Observou felina sua vítima. Andou um caminhar quase ritual: passos leves e rítmicos, uma dança fúnebre, quase balé. E com precisão médica entregou-se finalmente à sua obsessão, como uma criança. Provou a carne humana que tanto a seduzia, bebeu o sangue com que tanto sonhara. Com esse folguedo doentio, essa folia funesta, a voz que a sufocava tanto calou-se para sempre. Era apenas o início.

Uma fera à solta – e pior: à caça.

28/02/2008

Num fôlego

Porqueaindameassombraseráquedeveriaterfeito diferentetudodiferentedoquefiz?morrodevontade deligarparavocêmasseestiversemeatendercomovou mesentir?voutercoragemdedizertodasascoisasque disseevocênãoescutoueeunãotivecoragemderepetir mesmosabendoqueiaperdervocênãopudevernem fazernadaparaimpedi-ladeireenquantotudoisso rodavaemminhamenteeacabeçadoía,oquemais magooufoinãoterganhadoaomenosumbeijode despedida...enuncaconsigoesquecernadadissoe tentoetentoetento,éumalíviotirarnumfôlegoesse desabafoqueardeemmeupeito.