10/11/2009

Metendo o bedelho no ensino

A Uniban não foi responsável pelo que aconteceu. Fato. Não adianta jornalista, blogueiro e tuiteiro espernear. Mas é responsável pelo que aconteceu depois. Por TUDO que aconteceu depois: a passividade dos professores e funcionários, incapazes de colocar ordem na casa durante o evento, e a lastimável e incompreensível (pelo menos por enquanto, e pelo menos para mim) conclusão do caso, com punição para a suposta vítima, ou pelo menos – considerando que não temos todos os fatos – para apenas uma das partes culpadas.

Aí ok. Você critica a Uniban. Fala mal das "faculdades de esquina", "máquinas de impressão de diploma", “quitandas da educação”. Quer sua abolição e até propõe que o governo comece a reforma da educação por elas (juro que li isso, tá aqui, ó). E desce o cacete nas “faculdades de esquina, sem história e princípios”, em blogs, no twitter e colunas de jornais e sites. E eu tenho, como avisei ontem, algo a dizer sobre isso também:


Vocês são uns babacas. Digo isso com carinho.²


Com carinho especial, porque eu também era assim. Também dizia isso e colocava essas instituições no mesmo nível de certas igrejas que buscam apenas o dinheiro do fiel. *cof, universal, cof, renascer, cof cof*.


Mas acho que vocês nunca devem ter visto o orgulho nos olhos de alguém que ralou bagaráleo para se formar por uma Uniqualquercoisa, né? Eu vi há apenas alguns anos, e isso mudou muito a minha opinião sobre esse assunto. Porque vamos combinar, é muito fácil falar isso quando você fez uma boa faculdade, tradicional, reconhecida (e mesmo quando nem tanto, porque tem muita gente que fez faculdade considerada meia boca criticando também). Quando teve grana pra pagar essa faculdade, graças a pais, tios, avós ou mesmo ao seu trabalho – porque você tinha certo nível de preparação e o trabalho que conseguiu bancava uma faculdade dessas. Eu mesmo dei aula de inglês para pagar minha faculdade. Não há nada de errado com qualquer uma dessas situações.


Mas está errado tirar de toda uma camada da população o direito de buscar algum tipo de educação. Que só consegue fazer alguma faculdade, mesmo que vocês (e eu também) considerem-na fraca, porque ela é barata e “fácil de entrar” mesmo para quem não fez uma escola primária e secundária minimamente razoável. Porque é esse, meus amigos, o público alvo dessas instituições.


Aqui cabem parênteses: texto totalmente desconexo do caso da Geisy, ok? Estou falando agora puramente da universidade dela, e outras, que atendem classes que não a A e B da população. Não sei a história da menina, quanta grana ela tem. E não dou a mínima.


Claro que tem mané folgado fazendo porque é fácil e assim ele vai ter cela especial sem muito esforço quando se for preso (aliás, tava para ser abolido isso. Alguém sabe se ainda vale?). E claro que nem todo mundo é o carinha esforçado que eu falei acima. E claro que, no caso específico da Uniban, tem muito neguinho que não tem capacidade nem pra escola de adestramento.


Mas tem gente ali que merece ter acesso. E não vai entrar na USP nem pela lei de cotas, porque não tem cota para todo mundo. E não vai conseguir bolsa na PUC, porque não tem bolsa para todo mundo. E cujo emprego, como assistente de almoxarifado júnior, não rende o suficiente para pagar mensalidade de 500, 600, 800 paus, além de ajudar em casa. “Ah, mas devia ter educação de qualidade e de graça para todo mundo!”, dirá o gênio que adora apontar o óbvio -- ok, colega. E o Papai Noel vai vir, cavalgando um unicórnio roxo emprestado dos gnomos, pegará o pote de ouro no fim do arco-íris e acabará com a desigualdade social e a fome na África. Vai esperando aí que eu vou tomar uma Coca.

Pode ser que o objetivo dessas instituições seja ganhar dinheiro (muito diferente da empresa em que nós trabalhamos, né? /ironia), mas existe sim um lado social – mesmo que sem querer.


Porque na boa, se de cada 1000 salvar 1 que raciocina, lê e se desenvolve, já valeu a pena. Já é mais que em blog, twitter e coluna de jornal...

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