18/04/2025

Rituais

Eu li em uma reportagem, muito tempo atrás, sobre as características que definiam o início da civilização - o que marcava a mudança de um "grupo de humanos" para uma comunidade, uma tribo. Um dos marcos que antropólogos e arqueólogos consideram como principal sinal do nascimento da civilização foi quando os humanos passaram a desenvolver rituais para lidar com a morte: enterros, piras funerárias... não pelo ato em si, mas porque ele representa um senso de coletividade, de luto, de organização social e até mesmo de espiritualidade e crença na vida após a morte - conceitos complexos, simbólicos e socialmente compartilhados que são intrínsecos do conceito que definimos como civilização.

Lembrando das pessoas queridas da minha vida que já se foram, nem consigo imaginar o tanto que seria dolorido se não fossem esses rituais. Porque sua função social é grande demais: é apoio para a família (e para nós mesmos).

É homenagem.

É respeito.

É sentir e, principalmente, compartilhar a dor.

E é também reconectar. Com a pessoa que se vai, com as outras pessoas daquele círculo. É rir com essas pessoas, o que nos lembra que estamos vivos e que esse estado é absurdamente fugaz. E não consigo pensar em nada mais importante.

Hoje me despedi de um amigo. Um cara espetacular, que conheço há quase 20 anos. Jogamos bola juntos, saímos juntos, rimos e falamos besteira juntos. Eu sempre fui mais quietão, ele sempre foi um dos que eram a alma da festa. O tipo de cara que juntava todo mundo. Que estava em todas - e mesmo eu sendo mais quieto e não estando em todas (e por mais que tenhamos nos afastado nos últimos anos e os encontros semanais de futebol e papo tenham virado mensais e depois anuais), quando nos víamos nos tratávamos com um baita carinho. Absolutamente nada em nossa interação mudava. Como se o tempo tivesse congelado, conversávamos como se estivéssemos continuando um papo do dia anterior - e boas amizades são assim, não é mesmo?

Ele tinha um abraço forte e caloroso e uma risada solta, divertida. Temos praticamente a mesma idade. Impossível trocar uma ideia com ele e não sair melhor, ele realmente era luz pra todos a seu redor e o tanto de comentários, homenagens e testemunhos dos que o conheciam não me deixa mentir. E é muito triste quando alguém assim se vai... o mundo sai perdendo, e cada um de nós tem um cantinho da alma que fica reservado para as lembranças.

E você vai ser lembrado, querido Vanzo. Sempre. Vai em paz, meu amigo, que pedacinhos de você estarão vivos para sempre na gente. Em tanta gente que você tocou e que gostava de você. E que agora enfrenta a dor e a injustiça de perder uma pessoa tão incrível tão cedo.

Ainda bem que temos esses rituais... a vida seria insuportável sem eles. E neles está parte tão importante de nossa humanidade: a capacidade de conectar, de lembrar e de transformar a dor em presença.

06/05/2020

Chandler

*Flashback de 1986/87*

Meu pai jogava bola todo final de semana, religiosamente. E me levava junto, para que eu jogasse com a molecada, os outros filhos da turma da pelada ali. Depois, a sagrada "cervejinha" com os amigos, enquanto eu tomava um refri e ficava escutando o bate papo deles (o resto dos garotos ia... sei lá o que ia fazer, eu nunca fui social demais e preferia ficar ali perto, para voltar logo para casa e para ouvir o papo dos adultos). 

Sempre tinha os "coroas" (na real eram mais novos do que eu sou hoje! hahahah) que ficavam se gabando de que poderiam ter sido profissionais, com alguma desculpa sobre o que tinha feito eles irem em outra direção. E eu lembrava de ficar maravilhado, pensando "nossa, que legal, estou aqui com esses quase jogadores profissionais!" (pô, dá um desconto: eu só tinha 7, 8 anos). Mais velho, ainda ouvindo as mesmas histórias, caçoava deles mentalmente enquanto ouvia e pensava no tanto que aquilo era só papo, "como podem falar tanta merda, tanta mentira, e todo mundo ainda concordar?? Se fossem bons mesmo, tinham sido profissionais"

*Corta para ano da desgraça de 2020. Dia 06 de Maio.*

Eu queria postar uma coisa no twitter hoje, mas me deu medo. Era o poeminha que escrevi esses dias, sei lá, achei legal a melancolia dele, achei que cabia em twits, e realmente me ajudou a clarear a cabeça. Mas bateu tanta insegurança que não o fiz.

Não é que eu ache que escreva mal. Também sei que não sou um grande escritor. Mas sempre gostei tanto de escrever, que a fantasia de que eu poderia ser escritor se me dedicasse, se "tivesse tempo", é uma parte grande de mim, do que sou. É reconfortante. Me dá uma crise de ansiedade real oficial pensar no que faria se fracassasse em algo que amo tanto, que tem tanta importância para mim (ler é provavelmente o hobby que mais amo na vida, sem querer ser presunçoso de maneira alguma - não arroto que só leio coisas de "alta qualidade", nem menosprezo o que outras pessoas leem. Mas confesso que já fiz isso, quando jovem. Tem que acabar o jovem). A mesma coisa com ilustração. Eu talvez tivesse algum talento, não sei, mas a real é que eu nunca fui atrás de verdade - e, nesse caso, eu inclusive tive oportunidade, e acho que é porque eu sabia que seria devastador se não desse certo.

Lembrei de Friends.

O que Chandler sempre quis fazer na vida era algo que fosse criativo (oi), mas precisava trabalhar (oi²) e arranjou um emprego em que se deu bem, mesmo sem dar muita importância (oi³) - e justamente por isso, que fazia com que não tivesse medo de arriscar, tornou-se bom naquilo. Com o tempo desenvolveu uma boa carreira, com bom salário, e foi ficando cada vez mais e mais difícil pensar em fazer qualquer outra coisa.

Eu sempre brinquei que era o Chandler por ser um loser com as mulheres e mesmo assim acabar com uma Monica e pelo senso de humor, pelo sarcasmo. Mas pqp, quando menos esperava, tá aí mais uma coisa em que posso dizer que sou como ele - claro, sem estar em uma "feel good sitcom", não tem como largar tudo para "focar na carreira que realmente gosta" (e, sendo sincero, uma grande diferença é que eu gosto bastante do que faço, me sinto bem realizado - ainda bem!) e isso ter alguma chance de dar certo.

Mesmo assim, essa fantasia é, paradoxalmente, a coisa mais real que eu tenho e não me sinto pronto ainda para abrir mão dela. Não sei por quê é tão difícil - teoricamente, eu não tenho nada a perder. Já faço algo que curto, sendo "bem sucedido" e isso é apenas um hobby, certo?

Certo?

Então por quê? Além de tudo, a máxima de que "o medo de perder tira a vontade de ganhar" (valeu, pôfexô!) dita que se eu não publico, ninguém lê, se ninguém lê, jamais vou poder tornar esse hobby minha principal atividade. Uma equação perde-perde pra coach nenhum botar defeito. Mesmo assim essa barreira mental permanece.

Qual a conclusão?

Vish, e eu lá sei*? Vim desopilar aqui justamente porque não tenho resposta alguma - e sejamos francos: dá uma olhada em tudo que postei aqui, eu por acaso tenho cara de quem tem alguma resposta pra qualquer coisa? Mal aê.
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04/05/2020

Armário (parte final)

E só para deixar registrada a conclusão da EPOPÉIA de montar um armário: terminamos hoje mesmo (bom, ontem, tecnicamente) de montar e ficou até passável. Até regulagem das dobradiças dei um jeito de fazer. Claro que o bichin é vagabundo que dá até dó, mas missão dada é missão cumprida então pronto.

PS: não teve foguetório. Eu culpo o Crivella.

PS2: eu ia postar uma foto mas, sinceramente, vendo a foto, fica ainda mais ridícula essa narrativa toda. Sério, deu vergonha, vou deixar a imaginação de quem ler isso aqui pelo menos dar alguma dignidade a toda essa provação ;P

PS3: acabei de reparar que na foto sobre a organização da mesa tem um pedaço da minha coxa. HUMMMMMMM SÉQUIÇI


Desculpem, vou tentar deixar isso aqui, como nunca sempre foi, um ambiente familiar Ó_Ò

03/05/2020

Chuva

O poeta choveu palavras
de suas pesadas nuvens de papel.
Cada gota carregando um lamento,
um amor,
um pesar,
uma alegria,
um sonho,
desejos,
que nunca existiram
E que existiram tanto

Chovia poesia
descarregando suas dores
e molhando a todos que caminham,
desavisados,
por suas linhas.
Encharcando seus cabelos,
suas roupas,
escorrendo por seus rostos,
por seus olhos,
por seus dedos.

Clarões furiosos,
de relâmpagos em sua pena,
cortando o espaço entre os versos,
lampejando a escuridão em suas mentes.
Um sobressalto efêmero tão belo
de descarga elétrica
entre céu e terra
versos e leitor.

E após sua tempestade
clareia o céu
e o escritor caminha mais leve
sentindo o sol,
as estrelas
e o cheiro de grama molhada...

02/05/2020

O armário

Finalizando de ontem, hoje preferimos curtir muito mais o dia fazendo belos nada e avançou pouco a construção do armário.  ‪¯\_(ツ)_/¯‬

E, continuando na sinceridade brutal, eu ferrei a mão ontem e fiz ainda menos, e foi a Monica que fez a parte chata de hoje (colocar as cantoneiras por dentro com a mão batendo nos cantinhos tudo para conseguir parafusar é odioso). Só coloquei as braçadeiras das portas e o painel de fundo que martelei com muita alegria aliás, imaginando a cara de c-e-r-t-o-s p-r-e-s-i-d-e-n-t-e-s. Avançamos para 93% pronto.

MAS consegui dar uma bela demonstração do por quê do meu "apelido" daqui (essa história já contei aqui), sempre cabe a ANEDOTA: ao encaixar as duas peças do armário, para a cavilha "entrar bem" (ui, danado), eu resolvi APOIAR no armário, que é bem vagabundinho diga-se de passagem, e A CARALHA QUASE RACHA O PARAFUSO DA BASE. Coloquei mais um só para garantir, mas né. Uma anta.

É isso. Quando concluir espero uma saraivada de fogos do nível do reveillon em Copacabana. 

TEJE AVISADO, CRIVÉIO  Ò_Ó

01/05/2020

Aqui é trabalho, meu filho!

Não podia ter passado de maneira melhor o Muricy Day do que... trabalhando, né? Mas em causa própria, pelo menos. Enquanto estamos ainda aqui no Rio de Janeiro, descobrimos uma caixa fechada, com um móvel para a cozinha que a sogra comprou (há mais de ano) e não abriu. "A gente monta!", alguém disse, e lá fomos nós (eu).

Abrimos a caixa e observamos a pilha de material. Se disserem que sou organizado, uns 85% das vezes é mentira, mas para projetos assim, até que não faço feio. Separei direitinho as coisas, as peças e os parafusos, pregos, dobradiças, etc, para facilitar depois. Também não chego a ter TOC, mas olha que belezura:

Dá até dó de usar, diz aí?

Mas aí conto pra vocês: o cara que escreveu as instruções não tem mãe não, viu? Lá em basicamente o móvel montado, as indicações de parafuso, e é isso - é como se o manual me olhasse, sábio como o Yoda, e dissesse: "Siga seus instintos, jovem Padawan", "confia na sua capacidade" e também "joga como Brasil", tudo de uma vez só. E lá fui eu, o Davi Luiz da casa, querendo trazer um pouco de alegria a meu povo nesse momento tão complicado, tentar montar o armário na unha.

Ah, calabok Yoda  ¬¬ 

Ok, importante dizer: eu não estava montando também 30m² de armário, tá? É só um pequeno armário de 1,72m por uns 80cm. Enfim. Só para deixar claro.

Então estou eu montando essa KITCHNETTE e decifrando o SUPERDETALHADO manual de instruções, encaixa prateleira, aperta parafuso, sobe a lateral, monta a parte superior, pega a cavilha, encaixa uma parte na outra... o tempo passa, o tempo voa e quando vi, eram mais de 9 da noite e eu suado como um estivador ao fim do dia - enfim, uma vergonha. Mas o armário estava 80% completo, eu só não ia pregar o painel do fundo essa hora porque, convenhamos, eu não sou TÃO fdp. Amanhã eu termino. Mas já está quase pronto, bela homenagem ao 1o de Maio.

É nóis, professor!
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30/04/2020

Ideias

Muitas vezes antes de começar a escrever vem um conceito geral na cabeça, e conforme começo a escrever, as ideias vão tomando forma, se encaixando, e eventualmente formando alguma coisa pelo menos coerente (nunca disse que são BOAS).

Oooutras vezes, as ideias nunca chegam a ficar coerentes, ou as acho sem graça demais, ou nonsense demais, e acabo desistindo.

E outras ainda eu anoto o conceito geral, porque a ideia parece legal, eu sinto que o tema é interessante para mim e eu me divertiria escrevendo, mas não consigo desenvolver como gostaria, não sai do lugar. Eu sei que o processo criativo é "99% transpiração e 1% inspiração", o clichê existe por um motivo, mas não sou fã da transpiração dando murro na parede: se não consigo ao menos desenvolver um pouco a ideia, já sei que quebro a cabeça e não sai nada. Já tentei bastante quando era mais jovem, mais criativo e tinha tempo livre nas mãos, não vai ser agora que não tenho nada disso que vai mudar.

Então eu sei que tenho que deixar a ideia marinando ali, reler de vez em quando, acrescentar algo, mudar aqui e ali para finalmente sair algo. E... mesmo assim às vezes não sai. É o que aconteceu no exemplo abaixo: já está há mais de 3 anos salvo o rascunho da ideia abaixo. Toda vez que leio, acho que posso gostar de escrever algo com essa ideia, mas leio, releio e no fim não sai absolutamente nada. Já que não sai nada... coloco aqui a ideia bruta. Tá aí algo que nunca tentei: publicar, e ver se sai algo então. hahahah Se não, pelo menos posso dizer que publiquei algo.

"A Poção

Um soldado, muito ferido, ao ser deixado para morrer em uma batalha encontra uma bruxa com uma poção mágica que salva sua vida recuperando todos os ferimentos, mas que encurta sua vida em um ano. Um solitário que só conhece a guerra, volta às batalhas e continua lutando e se ferindo e se curando magicamente. Eventualmente se torna o maior guerreiro do mundo conhecido. Porém, quando está colhendo os frutos de suas glórias e desfrutando de riquezas e conforto, e finalmente encontra o amor de sua vida e se apaixona, percebe que usou a poção um número tão grande de vezes que irá morrer a qualquer momento."

Eu vejo a possibilidade de discutir solidão, imediatismo e até mesmo nossa cultura workaholic, de deixar a vida passar sem dar atenção para as coisas realmente importantes - mas não vejo a história. Quem sabe um dia?

29/04/2020

Jornada - O Início

As montanhas o observavam de longe, guiando seu caminho. Parado à beira da pequena estrada de terra, sentindo o cheiro do chão seco levantado pela brisa, ele apenas olhava as formas sedutoras ao longe, compelido a encontrá-las.

A escalada era apenas parte de seu objetivo, a adrenalina que viria com ela um prazer adicional a sua jornada: as lendas que ouviu em sua peregrinação atestavam que, escondido nas montanhas, vivia um velho e sábio eremita que saberia segredos incríveis sobre o universo e levaria qualquer um que se tornasse seu aprendiz à iluminação. Mesmo naquele momento, ainda tão distante, mirava as montanhas e sentia uma presença tranquilizante olhando de volta. Reconheceu, pela primeira vez em sua vida, algo que poderia definir como destino.

Deu o primeiro passo, observando à sua volta enquanto as folhas das árvores, agitadas pelo vento, pareciam despedir-se. Como acontece muitas vezes nesses casos, a pequena estrada iniciava em um sentido que o levava para mais longe de seu destino, até que - sinuosa e bela - suas volumosas curvas endireitaram-se novamente à visão das montanhas ao longe. Foram cerca de três horas entre curvas e a mata fechando-se aos poucos conforme chegava ao fim dessa primeira etapa, com morros aos lados apertando o caminho e a terra no chão mais úmida, chegando finalmente a uma pequenina cascata que saía de uma rachadura na parede de pedras e vegetação à sua frente. Com pouco esforço, e não sem antes parar para mergulhar seu rosto e beber da água fresca e cristalina que jorrava, tateou o barro viscoso com mãos firmes, decididas e subiu os cerca de quatro metros até novamente seguir seu caminho, agora sem uma estrada à sua frente, apenas os montes dando-lhe direção. O grande descampado à sua frente ondulava gentil e convidativo antes de chegar ao pé das montanhas. Tirou suas botas e caminhou lentamente, aproveitando a sensação do relvado sob sua pele, com o sol atravessando o céu azulado conforme o dia avançava.

Quando anoiteceu, deitou-se em um pequeno barranco que formava uma depressão aconchegante no gramado e observou as estrelas, que brilhavam como nunca havia podido ver nas grandes cidades em que estava acostumado a viver, e adormeceu lembrando-se de um poema de Mario Quintana:


"Se as coisas são inatingíveis, ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
A beleza distante das estrelas!"

Sonhou pela primeira vez em muitos anos: um sonho leve, claro, colorido e cheio de luz.

27/04/2020

Dos rituais

Em plena pandemia, há muitas coisas que sacrificamos. É necessário, é o que estamos vivendo, é muito compreensível e - vamos ser realistas - qualquer um que respeite minimamente a ciência e tem a possibilidade (e o privilégio) de fazê-lo, está fazendo.

Mas há alguns rituais, alguns costumes ancestrais, que são mais fortes que a razão. Que são necessários. Que falam com um lugar primitivo de nossas almas de maneira poderosa. Despedir-nos das pessoas que mais amamos é um deles. Talvez um dos principais. É conforto para os mais próximos ver a todos reunidos em demonstração de amor e de respeito. É sentimento de sociedade, de união, de civilização.

Sim, de civilização.

Há uma teoria antropológica que propõe que o principal sinal de existência de civilização não foi o surgimento de cidades, mas sim como essas comunidades lidavam com seus mortos.

E é por isso que, mesmo em um momento como o atual, entramos em um carro, os 4, e viemos para o RJ, de onde escrevo nesse momento, nos despedir do meu sogro, Sérgio, que descansou, após bastante luta. Um cara incrível, que merecia todas as reverências possíveis e a presença da grande família que o ama tanto. Mas não se pode ter tudo, e infelizmente (mas necessário) não pudemos ter a aglomeração que ele deveria ter em sua homenagem. Éramos poucos, os mais próximos (e que puderam vir). Outros, conectados - bizarra e comicamente, mas, estranhamente, algo de belo também - por videoconferência.

E assim nos despedimos, cumprindo o rito ancestral que há mais de 100.000 anos o ser humano pratica. Acalmando a alma, apoiando quem fica. Tchau, Sergião. Seu legado fica. S2

10/03/2019

"Mas você escreve tão bem!"

Tudo começou há um tempo atrás / na ilha do soooool quando eu ainda era criança, há muitos anos (tanto tempo que "idéia" e "asteroide" ainda se escrevia com acento, mas divago). Eu me lembro de estar sentado em uma aula de língua portuguesa e a professora elogiar uma tarefa minha de redação - pela imaginação e por ter usado uma figura de linguagem (não lembro qual era o nome, será que era acróstico?) no nome de uma personagem - um "nome-trocadilho" (sim, eu sempre fui infame. Me deixa!): a redação era sobre uma ladra de jóias chamada "Jô A. Lheria". Sim, "jóias" também tinha acento. "Você escreve tão bem!", disse a Tia Lea.

Depois, aos 11 anos, um professor de redação - o Professor Davi - me segurou após a aula para me interrogar sobre uma redação que eu havia entregue. Perguntou várias vezes se eu tinha tido ajuda dos meus pais ou de "algum adulto" para escrever aquela redação. Quando respondi todas as perguntas e ele ficou satisfeito que não (e eu não tinha mesmo), me elogiou e disse que havia ficado "muito impressionado", que "nunca havia dado um 10 na vida", até aquela redação. "Parabéns, viu? Você escreve muito bem!"

Não lembro absolutamente nada dessa redação aí, nem tema, nem trocadilho infame, nada. Mas lembro que entre as perguntas dele tinham muitas sobre o que eu costumava ler. E eu já lia bastante mesmo, e contei pra ele sobre histórias em quadrinhos e livros que lia, como A Mina de Ouro (de Maria José Duprè), O Homem que Calculava (Malba Tahan), O Gênio do Crime (João Carlos Marinho - e depois toda a série que esse livro gerou), toda a série de Monteiro Lobato e alguns de Julio Verne.

Depois veio poesia, vieram HQs e livros mais complexos, com histórias mais complexas. Eu escrevia e sonhava em contar histórias, e lia cada vez mais. De tudo! Lucia Machado de Almeida, Pedro Bandeira, Arthur Conan Doyle, Agatha Christie, Mario Quintana, Drumond, Katherine Neville, Machado de Assis, Alexandre Dumas...

Mas o objetivo aqui não é bater uma punheta intelectual para mim mesmo. Eu só estava tomando banho quando senti uma baita vontade de escrever. E comecei a pensar na razão pela qual era tão mais fácil antes. Como um garoto tímido pra caramba e introspectivo, que passava mais tempo com livros e quadrinhos do que com pessoas, as idéias (com acento) vinham fluidas, fácil e naturalmente. Eu tinha o costume de ficar acordado até muito tarde e ficar viajando olhando o céu, as estrelas e a Lua me fazendo companhia às 3, 4 da manhã. Refletindo sobre as coisas do meu pequeno mundinho, e a paz que isso trazia parecia clarear o pensamento, “lubrificá-los”. À noite, com todos dormindo, eu me sentia mais livre do que em qualquer outro momento. E escrevia. E desenhava. E compunha. E vivia amores impossíveis, sonhos fantásticos e aventuras intensas como só a juventude permite. Mas a vida passa, a gente amadurece, vai tendo mais e mais coisas ocupando a cachola, escreve menos e menos... "Mas você escreve tão bem!", a vozinha no fundo da cabeça me recorda, no escuro. Mas só quando o pensamento é selvagem, solto.

Eu não olho mais o céu da madrugada, as estrelas.

Não tenho mais tempo. São tantas responsabilidades, tantas pressões, sempre tão ocupado, que nem mesmo lembro de fazê-lo. E escrever vira só essa saudade latindo na mente de vez em quando.



...Sinto falta da Lua.


07/01/2016

O três dele

E aqui fomos nós de novo. Depois da aventura que foi seu nascimento, você também não tem deixado nem um pouquinho mais fácil te criar. Voluntarioso, teimoso, cheio de manias e briga - e como briga! - pelo que quer com unhas e dentes (ou melhor dizendo, com pulmão e lágrimas).

Mas você está crescendo e amadurecendo visivelmente, o tempo todo. Apesar de ainda ter o pavio curto (sem trocadilhos,seus mente suja), você já entende que quanto mais rápido acalmar, respirar fundo e negociar, mais fácil são as coisas. Sou obrigado a confessar que isso é um alívio para o seu pai, já não quero vender você para o circo com tanta frequência (mentira, nunca quis e afinal quem iria comprar). E como você está carinhoso! A cada "colo, papai", a cada abraço, a cada "eu te amo", a cada preocupação com sua irmã, sua mamãe e comigo eu me encho de orgulho de saber que estamos criando uma pessoinha do bem, alegre e que se preocupa com os outros ("Papai, você tá feliz?" sempre que apronta alguma desmonta qualquer bronca).

Você está tão ligeiro quanto a Cat era na sua idade (a história da galocha - e tantas outras - é impagável: "Rafa, que linda sua galocha! É pra chuva?" "Não, é pra mim!"), tenho a terrivelmente deliciosa certeza de que, juntos, vocês darão muito trabalho para a gente. E estou ansioso por todos esses desafios que ainda virão, e ao mesmo tempo curtindo tanto essa fase atual, que dura tão pouco tempo.

E você também está cada vez mais criativo, inventando (e contando) histórias  incríveis, sem pé nem cabeça, e cada vez mais longas e ricas e cheias de personagens inventados nesse cérebro maravilhoso.

Feliz aniversário, meu filhote. Eu SEMPRE estarei feliz enquanto estiver ao seu lado. Te amo!

Papai

26/11/2015

Paciência é uma virtude...

...que me falta muito.

Ok, aviso: o tema desse post é pereba e é meio nojento então lê quem quer. Teje avisado(a).

Quem me conhece sabe (e quem não me conhece percebe rápido também) que o apelido carinhoso de "ogro" não era por acaso e eu não sou lá muito inteligente em alguns momentos, apesar de tecnicamente ter o QI relativamente alto.

Ingual certas pessoas.

Enfim, para resumir a história, estou com uma berruga (tá, não é exatamente isso, mas não sei o nome técnico, é um câncer de pele daqueles benignos que não são nada) na cabeça há algum tempo, que machucou e volta e meia sangra um pouquinho.

Eu sei, eu sei, já fui em um dermatologista, ele deu prioridade para outras pintas "mais graves", ela entrou na fila para arrancar (na época não estava sangrando), aí mudei de emprego, outro plano de saúde, esse médico não aceita, tive que ir em outra dermato, puta mulher enrolada do caralho, ficou de enviar e-mail para marcar a cirurgia, aí não fazia a cirurgia quem fazia era o médico parceiro dela de clínica que - surpresa! - não atende pelo plano, aí fiquei puto porque óbvio me senti enganado, mas preciso fazer essa porra então ia fazer de qualquer jeito, mas daí que o e-mail nunca veio e não fiz muita questão então eu e minha verruguinha estamos aí, num relacionamento sério em que a gente se tolera e ela sangra de vez em quando ou seja, quase uns casamentos que já vi por aí.

E quase um episódio de Futurama.

Enfim, hoje tomei banho e sequei a cabeça com todo o cuidado do mundo e mesmo assim a diaba sangrou. Aí me irritei, peguei a escova de cabelo e escovei com uma certa raiva.

Lembra que falei que às vezes não sou lá muito inteligente? Então.

Sangrava um pouquinho de vez em quando, né.

Hoje sangrou pacaráleo.

>_<

08/11/2015

Alma do negócio

Deixa eu dedicar um pequeno espaço para colocar uma notícia que me chamou um pouquinho a atenção. Essa é das melhores (ou piores?) que já li. Registrem o que eu digo: se Tyrone Burgo um dia tiver um blog e criar uma seção de “decisões brilhantes”, e fizerem um concurso regional de decisões brilhantes, ele vai qualificar para o campeonato nacional de decisões brilhantes, ir para o Japão concorrer no mundial de decisões brilhantes (que alguns rivais invejosos anos mais tarde chamarão de "intercontinental de decisões brilhantes", mas não vem ao caso), vai ganhar do Real Madri das decisões brilhantes de goleada e vai levar o troféu fácil fácil.

Vamos brincar de RPG, amiguinhos: você é um cara mau. Um traficante. Mora na região barra pesada de Boston. Dirige um carro roubado, e colocou nele placas frias. Você dirige com a habilitação suspensa. Você é FODEROSO, resumindo! Um cara mau bagaráleo. Um GTA da vida real. V1d4 L0k4. Mas aí, um belo dia, você nota que as vendas de coca baixaram (e lá nem tem a Dolly pra culpar) ou simplesmente não estão crescendo na velocidade que você esperava. O que você decide fazer, mano?

A-) Mano, meto umas azeitona nos concorrente!
B-) Brou, convido uns truta pra vender pra mim e ampliar minha zona de atuação!
C-) Véio, ANUNCIO NA INTERNET que vendo drogas e coloco meu telefone para contato!!! Propaganda é a alma do negócio, nénão?

Assumindo que você não é um mamífero completamente acéfalo, você escolheu “A” ou “B”, certo? Pois nosso amigo Tyrone escolheu “C”. Sem zoeira. A polícia de Boston simplesmente ligou em seu telefone e agendou uma “compra”, mandando um detetive disfarçado. Quando efetivou a compra, anunciaram a prisão. Simples assim. Êêêêêê lerê. Tenho alguns amigos policiais e se todas as prisões fossem fáceis assim... ou todos os bandidos fossem burros assim... Imagina só: é o equivalente ao Maluf mandar um extrato do banco Suíço onde ele esconde a bolada, sem querer, para o Imposto de Renda ao invés do contador dele nas ilhas Cayman (quem nunca, né). Fala sério! ¬¬

Já dizia muito bem meu sábio avô, quando vivo: “Se vai fazer alguma coisa errada, faça direito!” – claro que ele era o cara mais certinho que já conheci na vida, mas o conselho ainda é válido.

06/11/2015

Foley

Uma curiosidade sobre a história do cinema (contada por um leigo que não sabe a história do cinema, então relaxem e aceitem a ironia - é bom avisar, antes que xinguem muito no twitter heheh):

No início veio o cinema mudo. Não demorou até que os estúdios e cinemas passassem a colocar trilha sonora ao vivo em seus filmes (não vou falar em datas, não faço idéia das datas! Nem sei se demorou pouco, na verdade. De repente demorou bagaráleo. Mas "Não demorou até" ficou legal pro texto), em geral nada mais que um pianinho, para ajudar a dar o "clima" com a trilha sonora. Então veio finalmente o advento dos filmes com som, uma grande revolução. E a experiência mostrou aos alienígenas hollywoodianos que o sistema mais eficiente – apesar de mais caro – não era gravar o som “ao vivo”, durante a tomada que estava sendo filmada: o vento e outros fatores externos (ruído ambiente) tiravam muito da qualidade e clareza do som que realmente importava – as falas dos atores e sons importantes para a história. Porrrrrrrrrrrrtanto hoje em Hollywood TUDO é dublado – inclusive os efeitos sonoros! Ou seja, além de atuar no filme (alguns não atuam tanto assim, eu sei...), depois os atores dão um "bis" dublando as próprias falas em estúdio.


E quanto aos sons??? Explosões, passos, vidro quebrando, socos, grilos, etc, etc etc??? Pouca gente sabe (de novo licença poética: não sei se pouca gente ou muita gente sabe, nem sei se de repente TODO MUNDO sabe, me deixa), mas existem profissionais especializados em "fingir" esses sons – são chamados de “foley artists”. São essas pessoas que, acreditem, são responsáveis por absolutamente TODOS os sons (menos vozes) que você ouve durante um filme (exceções à parte, é claro – sempre tem um ou outro filme, geralmente produções independentes - ou de artistas querendo ser “alternativos” - que não usam esse recurso. Ah, aliás: alguém aí além de mim já parou para se perguntar o por quê dos filmes brasileiros terem o som ligeiramente “estranho”? Pois é, em filmes tupiniquins, por questões de custo, isso em geral não é feito! Mas era feito, e muito, na época das radionovelas - uns trezentos e dezessete anos e meio atrás). E os caras fazem tudo isso com cada coisa nada a ver! Tipo, barulho de chuva já vi sendo feito com papel alumínio,

Aí foram um passo além: na propaganda abaixo, a agência da Honda na Inglaterra (não sei quem atende!) foi criativa, usando o processo de foley como a própria propaganda, alternando com imagens do carro. O resultado é incrível, dá a sensação de que você está ouvindo o carro, mesmo VENDO que são artistas de foley. Simplesmente perfeito.


Olha um link direto aqui.


O "ad" também está, é claro, no site da Honda inglesa (não quero ser processado, afinal de contas! Já não tenho dinheiro do jeito que tá...) O chato é que é um pouco mais pentelho de achar, tem que fuçar um pouco o site - em flash.


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....tá, tá... admito: tô sem inspiração, pôrra. Mas pelo menos tem algo legal pra ver e cultura no texto, ué! Reclamar do quê? =P

04/11/2015

A humanidade não evoluiu - prova #2

Tive um tempo atrás a idéia de fazer uma série de posts, mas acabei esquecendo. Como estou caçando assunto, achei um bom momento para retomar. O primeiro post, falando da clara questão das seções de comentários, está aqui e apresento agora a segunda prova dessa conclusão tão óbvia!

É incrível como as coisas mais simples podem levar a grandes reflexões. Hoje pela manhã, por exemplo, li uma frase no elevador do hotel da convenção da empresa que me fez perder completamente a (pouca) fé que tenho na humanidade. Além do aviso para “por favor checar se o elevador está no andar antes de entrar”, que por si já é ridículo e absurdo – para mim, a questão é pura e simples: quem tem o dom de entrar no elevador sem ele estar lá MERECE. Isso melhora a humanidade, é seleção natural. Seria um substituto interessante para os monstros pré-históricos que caçavam os homens das cavernas e devoravam os mais burros ou menos capazes/velozes/aptos. Hoje em dia a questão não é tanto física quanto intelectual, afinal a probabilidade de você ser devorado vivo enquanto atravessa a Faria Lima para bater aquele rango na hora do almoço é bem pequena. Não é nula, mas é bem pequena.

Powtaquepariu, que absurdo o quanto eu divago para falar de um assunto só!

Enfim, o que eu li foi que para economizar energia elétrica a dica do mês é “utilizar o elevador corretamente”. Obviamente é destinado a alguém que escapou da seleção natural – não sei como essa pessoa sobreviveu alguma vez a atravessar a rua, por exemplo. Usar o semáforo corretamente não é lá muito diferente de usar o elevador. Estou imaginando alguém entrando no elevador e olhando com cara de bobo o painel com os botões: “Hmmm... eu quero ir para o 5º andar, então... vou apertar... esse aqui!” *aperta o 1S* “Droga, não deu. Vou tentar... esse!” *aperta o 11*. Só piora que o hotel tem tipo DOIS andares, é algo como pegar elevador "level very easy".

Sinceramente, são coisas como essa que me dão a certeza absoluta de que falhamos como espécie. Aliás, acredito que devemos dar uma mãozinha para a seleção natural e programar todos os elevadores para aleatoriamente abrirem as portas sem o elevador está lá. Após retirar todas as plaquetas de aviso, claro. Com o tempo, vejo duas possibilidades: ou a humanidade se extingue (não custa sonhar...) ou pelo menos tornar-se-á mais inteligente. Aceito mais sugestões para subirmos um pouco a barra seletiva do serumano, se tiver alguma.

30/10/2015

Periculosidade

Ser policial é perigoso e isso ninguém ousa contestar. Mas algumas vezes os fatos de ser um trabalho naturalmente perigoso e o ser humano ser inerentemente idiota se mesclam de uma forma tão engraçada quanto imbecil. E não é coincidência, na opinião desse humilde e também (imbecilmente) humano cronista, o fato de que a maior parte desses eventos vem dos Estados Unidos.

Iowa é um estado idiota em um país de idiotas. Vamos chamá-lo de “Idiotalândia”, para demonstrar seu potencial. E foi lá, em uma cidade chamada Davenport, que a polícia procurava um bandido. Eles demarcaram uma área a observar e colocaram policiais à paisana procurando o suspeito de assalto. Um certo detetive foi abordado por um certo idiota, McCory Slemmons, que o acusava de encarar sua esposa. Slemmons tirou um par de NUNCHAKUS (de onde eu não sei) e chamou o detetive pro pega. O policial calmamente mostrou seu distintivo e mandou Slemmons colocar os nunchakus no chão para ser revistado. Mas ao invés de obedecer, o brigão decidiu simplesmente virar as costas e ir embora. Foi preso, sob acusação de “ataque armado” (estou tentando traduzir os termos legais americanos o melhor que posso aqui...) e “embriaguez”.

É sério isso: a melhor estratégia que o imbecil conseguiu criar foi fingir que nada aconteceu e sair andando??? O que será que ele pensou? “Hmmm... droga, chamei para a briga um policial, mostrei uma arma e além de tudo tô bebaço. Já sei! Vou simplesmente fingir que nada aconteceu, ele vai achar que delirou!!!” Lamentável. Ele podia chegar para o policial e dizer: “Tem de creme?” Clássicos nunca morrem.

Cara, eu já encarei algumas esposas no meu tempo, mas nunca fui atacado por um maníaco com um nunchaku. Não, péraí... teve uma vez... acho... foi... Não, nunca fui mesmo. Teve um japonês uma vez, na frente de uma unidade da Cultura Inglesa, que... ah, meu, essa pode virar um post, deixa eu fazer as histórias renderem aqui.

29/10/2015

Assunto

Caraaaaaca. Isso é ainda mais difícil do que pensei. Eu sabia que seria difícil, afinal eu não exercitava essa parte do célebro há muito tempo, mas PQP é ainda mais difícil do que eu achei que seria. Pior é o branco total de temas que me vêm na cabeça - não, minto. Na verdade tenho até muitas idéias, mas todas elas relacionadas ao meu trabalho! Alguém aí quer aprender sobre liderança e técnicas de entrevistzzZzzzzZzZzzZZZzzzz

Não desistirei! Mas acho que terei que ser mais modesto com relação à meta - eu não cumpri a meta, não vou poder dobrar a meta, que tal cortar a meta pela metade então? Já tô melhor que nosso governo, afinal (pelo menos eu tinha uma meta). Ou fico monotemático no absurdo que é para mim esse radicalismo de opiniões atual e zzZzZzzzzzzZZZZZzzzz²

Afffff, nem eu me güento. Bóra dormir que eu ganho mais. :(

28/10/2015

Um dia difícil

Hoje realmente não foi um dia muito fácil. Para começar, com a economia do jeito que está, a empresa em que trabalho buscou maior efetividade em custos e estrutura mais ágil para tomada de decisões, o que sempre quer dizer "reduzir o número de pessoas". Houve várias demissões, e o clima o dia todo foi bem pesado. O processo até foi conduzido com o máximo de respeito que esses momentos possibilitam, com grande preocupação em dar apoio às pessoas e um pacote financeiro de desligamento. Mas é claro, isso doura a pílula mas não a torna mais fácil de engolir: é claro que a maioria das pessoas, se tivesse a opção, escolheria manter o emprego. Reestruturação para investir em umas áreas em detrimento a outras nunca é fácil. Faz parte da vida profissional - é como a morte (e, aliás, há estudos comparando a perda de um emprego ao luto). Isso foi minha manhã e grande parte da tarde.

Yay. ¬¬

O resto da tarde foi uma ligação de que minha filhota teve um pequeno acidente: foi sair do carro sozinha e prendeu o dedão na porta. Estava inchado demais e minha mulher achava que podia ter quebrado. Muito choro, muita dor...

PUTA MERDA. Horrível ver filho sofrendo, gente, e ao vivo é pior mas por telefone também rola uma angústia difícil de explicar.

Enquanto ela já saía com a pequena para o hospital, eu fechei tudo para sair e fui encontrá-la lá. Quando cheguei, já não havia choro e com as duas mais calmas também acalmei. Passamos pelo médico, passamos pelo xerox raio x, voltamos para o médico, diagnóstico: uma pequena fratura, nada sério, vai ter que usar uma tala por 3 ou 4 semanas. UFA! Claro, é ruim machucar e tudo, mas não ser nada sério é sempre uma coisa "copo meio cheio". E, melhor de tudo, a piveta estava já toda serelepe pelo hospital, sem dor, conversando e perguntando e sorrindo, e isso é bom demais também.

Claro, amanhã na hora de acordar para ir para a escola, esse dedo vai doeeeer... ;)

27/10/2015

Desafio

O problema é que dialogar é difícil. Muito difícil. Argumentar, respeitar e compreender o ponto de vista do outro, enxergar o mundo de maneira que não seja absolutamente egocêntrica - tudo isso exige esforço, porque somos animais que naturalmente tentam proteger seus interesses. Sua prole. Sua caça.

Maneiras de pensar diferentes da nossa se tornam imediatamente uma ameaça. Se EU não acho algo "certo", não quero que NINGUÉM possa fazer esse algo. Se eu considero algo "normal", eu quero que todos se comportem dessa exata maneira. De certa forma, somos todos assim, mesmo que seja óbvio que algumas pessoas são muito mais esforçadas em impor sua visão do que outras.

Ou será que apenas em assuntos diferentes? Tenho uma amiga, por exemplo, cristã super devota, que não se opõe ao casamento gay. Aliás já conversamos a respeito e nas próprias palavras dela: "não é nem algo que deveria ser discutido, de tão óbvio: todos têm que ter os mesmos direitos, ponto final" - e isso incluía adoção, etc. Mas se o assunto for trânsito, por exemplo, ela já acha que todos os que cortam pela faixa da direita para virar à esquerda merecem pena capital, e ela passa horas estragando discorrendo em qualquer happy hour sobre esse assunto.

Ou seja, viver realmente em democracia, com direitos iguais, é uma batalha contra nossos instintos. Não é natural. Ter que ouvir - e RESPEITAR - opiniões diferentes, aceitar que nossa visão de mundo não é unanimidade universal, que o que consideramos importante não tem a mesma importância para um governo eleito, é difícil demais. Mesmo que esse governo tenha sido eleito pela maioria das pessoas, não consigo conceber que pensem tão diferente de mim, que estejam tão "errados". A certeza que muitos tinham (e, mesmo depois da investigação e recontagem pelo PSDB ter apontado que não houve fraude, muitos ainda têm) de que as últimas eleições para presidente haviam sido fraudadas é um excelente exemplo disso. Pessoas discordando de um governo e não aceitando que talvez para outros tantos esse governo possa ter feito sentido. Ao mesmo tempo, uma vez que apoiei determinado partido ou governo, me torno praticamente incapaz de criticá-lo com o afinco que dedico a criticar "o outro lado", quando na verdade deveríamos avaliar uma gestão e cobrá-la de acordo, seja qual for o partido (não citei partidos aqui de propósito porque tenho certeza absoluta que cada lado vai entender essa frase como uma alusão direta ao seu partido versus o outro partido e vai ser divertido ler qualquer comentário ou xingamento, já deixei a pipoca no microondas).

Essa semana tivemos também a incrível polêmica do ENEM, aonde uma redação com tema sobre a violência contra a mulher foi considerada "doutrinação de esquerda". Não acho que as pessoas que afirmaram isso realmente tenham refletido sobre o que estão falando, elas simplesmente não conseguem aceitar que nada que venha de quem pensa diferente possa fazer sentido, possa ser benéfico, possa ser bem feito. Rejeitar imediatamente é uma reação natural ao que é percebido como ameaça - a loucura disso tudo, porém, é que pensamentos diferentes não deveriam ser considerados ameaças, obviamente. Mas estamos de tal maneira polarizados nessa discussão, pela incapacidade de dialogar e absoluta falta de empatia, que se torna uma.

Transparência total: eu sou de centro (mas não é ficar em cima do muro. A melhor descrição é essa aqui, do Chris Rock). Tem muitas coisas que acho interessante terem um viés mais social, e muitas coisas que acredito que devem ser regidas por lei de mercado, sem interferência estatal. Sou definitivamente "capitalista". Mas tenho diversos amigos "de esquerda" e "de direita". Convivo bem com todos, por entender a importância de considerar diferentes opiniões, e tenho amigos bem radicais para os dois lados, para os quais eu deixo a mensagem abaixo:

Nem todo mundo que pensa como você é seu amigo.

Nem todo mundo que pensa diferente de você é inimigo.

No final das contas afirmo categoricamente, por experiência própria: não é tão impossível assim ouvir os dois lados. E estou cada vez mais convencido de que é a única maneira de conseguirmos avançar.